terça-feira, 16 de outubro de 2012

Capítulo VII (Quinta Estação de Pintura)

                                                                             
                                                                                                              
     - Por que esta aqui? - Perguntava Pedro, com um acerta força na voz, surgindo à frente de Maria que saia de seu transe, após algumas dezenas de minutos observando as duas peças que retirou de sua bagagem. O imprevisto de seu surgimento pouparia dos julgamentos quanto ao ir ou não ir, perguntar isto ou aquilo, hesitações que já não tinha valor em sua vida há muito tempo.
     - Só ficarei aqui por alguns dias. Tenho que esperar a chegada dos outros e terminar este meu trabalho. – Respondia aquela mulher com sua beleza alterada pelo estado de ermitã que vivia. Devido talvez ao seu estranho e brusco surgimento perante os pintores, permanecia acanhada, com poucas palavras na construção de diálogos. E Pedro, pensativo, por nunca transitar em sua cabeça que um dia, ou que mais exato, um dia que mais parecia noite, fosse receber Maria de Albuquerque na frente da Estação, a mendigar com seu próprio silêncio por um cantinho embaixo do toldo do portão leste da estação. Mas a suprema verdade era que ela não estava mendigando por um canto, pois não chegou a impor qualquer suplica, ela simplesmente acomodou-se, sem mais ou sem menos, como dona daquele canto, ou como já sabendo que seria ali mesmo que deveria ficar. Já esperançando as gentis palavras de Pedro: um “pois não, fique a vontade, a estação é sua.” Em outra análise pode também ter imaginado uma atitude contraria do pintor noturno. Não estava disposta a ofender sua própria inteligência com previsões tão gentis para si, vinda de alguém que viu duas vezes em feiras de artesanato, e que não lhe inspirou nenhuma relevância. Para os pessimistas nada é gratuito, nem mesmo uma estadia na calçada vazia de uma estação que descobrira por ela naquele dia. Talvez um lugar novo, ou simplesmente um reencontro.
     - Você podia pelo menos ter pedido permissão antes de acomodar-se ai, logo no portão da frente. – Queixava Pedro, novamente se esforçando para dissimular suas reais intenções de conhecer mais de perto a escultora. 
     - Achei que pelo fato de hoje ser sábado e esta funilaria está com suas portas fechadas ninguém iria se importar com minha presença.
    - Você é Maria Albuquerque, a escultora, não é!?
    - Sim, mas não estou aqui para vender nada. Como disse a você antes, só quero ficar por alguns dias para esperar por aquele estão para chegar.
    - Você já disse isto. Mas quem são os estes e o que eles querem vindo ate aqui neste fim de mundo.
    - Esta estação, no qual vocês transformaram em funilaria e residência já foi um lugar de encontros. Onde repousavam aqueles que buscavam seus próprios momentos de criação. Não eram muitos os que vinham, mas sempre se podia rir e construir ao mesmo tempo. Era um lugar distante de tudo que você já tenha visto. Infelizmente o que restou foram apena umas poucas lembranças para os que aqui freqüentavam e ainda estão por ai, vagando. Isso foi ante de nosso nascimento, mas pelas histórias que ouvi posso recriar alguns traços.
      Surpreso com o que ouvia da escultora Pedro perguntava a si mesmo se realmente o que aquela mulher dizia era verdade. Também se perguntava sobre a negligencia de Miguel em não ter lhe contado sobre o passado daquela estação. Sem duvida ele foi um dos freqüentadores do lugar que Maria revelou.
      - Conhece um pintor chamado Miguel?
      - Não. Nunca ouvir falar.
        A declaração da escultora ecoava confusa na cabeça de Pedro. Tinha certeza de ela seria aquele que esperavam. Sentia-se frustrado. Lembrou que antes daquele momento estava inclinado para uma possível inclinação de Maria para o âmbito da demência e ficaria aliviado caso ela não viesse. Mas agora só seria ele e Miguel a irem para os cenários desconhecidos.
       Imaginou a possibilidade de Maria ir com eles. Por algum motivo Pedro acreditava que a escultora deveria participar da pequena jornada. Pedirá a Miguel que ela venha, já que se tratava de uma entendedora do mundo das composições, e que eventualmente aparentava conhecer mais sobre a história daquela região que o pintor esfarrapado.
       Lembrou que Maria estava ali para aguardar aqueles que viriam, e que a estação, segundo suas palavras, era num passado distante, quase esquecido, um lugar onde se encontravam varias pessoas. Se reunindo em torno de seu próprio universo criador.
       - Estamos partindo amanhã, bem sedo, para conhecer uns lugares desta região que ainda não foram visto. Se quiser vir conosco é dizer. Convenço Miguel a deixar você vir.
       - Que lugares são estes?
       - Não sei, como disse a você nunca estive lá.
       - Eis atraído pelo desconhecido.
       - Necessito dele para pintar meus quadros.
       - Entendo. Também sinto a falta do imprevisível. É com este que aprendo cada vez mais. Me faz sentir estimulada a criar peças nova, e  estas são as que realmente tem importância para mim.
        - O que estas esculturas representam? –Pergunta Pedro, apontando para as duas peças postas ao chão.
       - Uma delas representa um sonho que tive numa certa noite e então decidi criar uma peça que o representa-se. A outra foi apenas iniciada.
       - Por que não termina então?
       - Não sei. Na verdade é primeira vez que começo uma peça e não consigo terminá-la. Justamente nos dia que antecederam minha vinda para esta estação. Parece entender de escultura, estou certa?
       - Em parte, sou pinto. Na pintura procuro expressar ou representar o mundo a minha volta ou aquele estar dentro de mim. Creio que a escultura seja parecido. Sou apena um apreciador de sua arte, não um praticante. Mas gostaria de ter outra vida para poder praticá-la, em muito bonito.
       - No que esta trabalhando agora?
       - Gosto de pintar a noite, as paisagens noturnas. E recentemente venho tentando pintar estas paisagens com ênfase na cor violeta.
      - Você quer pintar a noite com uma cor que é derivada da luz?
      - Eis a segunda pessoa que me pergunta isto nos últimos dois dias.
      - É uma ideia estranha, mas acredito, pelas expressões em seu rosto, que haja uma novidade em seus quadros e que esta correndo atrás disso. Pensarei se irei ou não com vocês nesta pequena jornada. Sinto que poderei encontrar algo que procuro para terminar esta peça que comecei.
        Pedro então deixa Maria sossegada em seu canto. Teria um resto de tarde e um fim de noite para pensar na proposta.
        Miguel desaparecerá de sua vista. Provavelmente só iria surgir no momento da partida, para avisar que o sol não poderia surgir antes de colocarmos os pés na estrada, mesmo que esta não existisse.           
                                                       

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