quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Possessão



                           “A alma não passava sua segunda existência
                             em um mundo diferente do em que vivemos;
                             continuava junto dos homens, vivendo sobre a terra.”
                           
                             Fustel de Coulanges

“Ontem sonhei que fazia parte de uma legião de demônios  Normalmente deveria ter acordado com aquela sensação estranha, nauseante, sensação de medo e arrependimento. Não compreendo, mas, acordei sorrindo. Estava feliz, estava eufórico, excitado com algo que ainda estou tentando lembrar por completo. Tudo caótico: as cores e cheiros. Penso ser uma travessura do meu inconsciente, ontem assisti a um filme, destes com muitas cenas com ação, violentas, sexo e que há muito tempo não assistia. Filme de poucos diálogos: nem questões nem respostas. Matei minha vontade de assistir a um filme destes, não queria perder tempo lendo diálogos de legendas. Entende?”
“Claro que entendo, uma crise de abstinência por violência, ou por vê-la, aprecia-la, se for a necessidade do momento, mesmo que seja em cenas de filmes, campeonatos de lutas marciais, estes são minha preferencia, fico eufórico. Lutas márcias sempre foram meu prato predileto, degusto desde pequeno. Acredito que seja a predileção de toda a humanidade deste tempos imemoráveis, desde quando as pessoas começaram a se agruparem para cultuar o prazer que as lutas podem proporcionar. Continua a ser, de fato, e tenho quase certeza absoluta que continuará a ser até o momento, é claro, que deixarmos de sentir prazer em assistir uma luta.”
“Não estou falando que sentir prazer em ver cenas de violência. Apenas estou relatando que, estranhamente, me senti aliviada quando estava assistindo a este filme. Também gosto de lutas marciais, se isto interessa, mas acredito que as artes márcias tenha recebido este nome por se tratar de uma arte, uma forma sábia de controlar o corpo, amestrando nossa mente, conhecendo o potencial destrutivo que temos e, assim, condiciona-lo ao silêncio. Já ouviu falar e meditação durante as práticas de luta márcias, pois bem, é para isso que serve, para que não percamos o controle, para que nossa natureza não nos domine. Afinal, somos violentos por exatidão genética. Se assim não fosse, não existiria os milhares de opúsculos sobre o que somos e o que não somos, sobre o podemos fazer para prejudicar os outros.”
“Está dizendo que somos demônios por natureza. Iniciou esta conversa com aquela história do sonho que teve em que era um legionário do inferno, que não sentia nenhum sentimento de culpa. Sabe que nunca fui de entre em discursões sobre estes assuntos. Que não me atrevo a discuti-los com você. Não sou um estudioso das crenças da alma, e muito menos de seus efeitos negativos e positivos. Sou um mero adepto dos prazeres, mesmo que estes sejam as lutas, estas são minha drogas, meu vício. Eu poderia ter outros, assim como todas as outras pessoas; tem aquele se alto mutilam, o altoflagelo como é chamado e que nos esquecemos que ele sempre existiu, e que o cultuamos desde sempre, desde antes nossa imaginação ter criado os demônios, desde quando nossos temores sobre o que vem depois da ultima exalação de oxigênio. Foi o medo quem criou o paraíso e foi o medo, também, quem ajudou a inventar os demônios a nossa imagem e semelhança. São eles movem até mesmo nossas afirmações de bondade, são eles quem primeiro definiram as noções de benevolência.”
“Não iniciei a conversa sobre o sonho para testar seu conhecimento, e nem tão pouco iniciar mais uma destas conversas sobre céu e inferno. Pra mim não importa, cada um tem seus conceitos de certo ou errado, benevolência ou malevolência, se existe isso ou aquilo ou algo em terceira posição para receber questionamentos. Sonhei que fazia parte de uma legião de demónios e que me mostravam imagens dos tempos da criação, e que eles chegaram em nossas vidas primeiro. Diziam que nos deram o sabor e as cores. Além do menos ou do mais, nunca duvidei seu conhecimento filosófico, ou metafisico sobre eventuais posturas das crenças. Iniciei por que é um conhecedor das ciências que analisam a artimanhas da pisque humana, não acredite que este sonho tenha qualquer envoltura com entidades do submundo. A respeito do filme, é perfeitamente comum sentir falta de assistir a cenas de ação e violência. Replico que assisti a estas cenas e bem menos sádico do que as lutas, ali, em nosso frente, com o sangue verídico jorrando em nossos rostos enquanto gritamos, sorrimos e nos alegramos com a derrota, sorrimos com um dos oponentes caindo ao chão em lagrimas silenciosas de dor, vendo, ouvindo e cheirando.”
“Está vem só, são as mesmas sensações que os demónios de seu sonho queriam lhe mostrar, as mesmas que desde o princípio venho tentando lhe dizer. Nós somos estes demônios, nós nos atormentamos a nós mesmos de quando éramos primatas e securatas, e a agora terceratas que somos, estamos a viver com esta estranha versão de nosso ser, somos estes demônios que foram nascidos de nosso maior medo, a solidão, medo do nada além da morte, este confuso sentimento do não existir. Existimos, logo sentimos medo. Possessos. Sim estamos deste sempre. Loucura: um surto das paixões que tanto nos possuem, delas nos tornamos possessos. O demônio que existe sempre agiu, sempre nos acompanhou para onde quer que estivemos ou estaremos. Sentimos o esvaziamento de nosso ímpeto a cada paixão transpassada, para cada uma um fragmento de nossa alma é arrancado, até restar apenas a rigidez do ser que resta.”
“Entendi, acredita que somos todos demónios.”
“Acredito, e também acredito que sempre estivemos em possessão, nada menos que isso. Olhe para o demónio em seu espelho.”                               

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