segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O Cúmplice e o Trapezista




  
                        “A Cidade Livre era idêntica a um faroeste americano.
                               Mas sem cavalos, tiros ou brigas.”
                              
                                Flávio Von Sperling
    
     Pignati não era um dos nomes dos mais conhecidos, sua função não lhe retribuía relevância entre seus amigos. Além disso, era comum ouvir os queixumes sobre sua excessiva seriedade acerca da fiscalização e refino dos documentos que recebia dos destinatários. Estes, não muito distantes da cumplicidade do sistema de funções ao qual fora destinado – visto que não seria possível este distanciamento dos discernimentos de um sistema, pios os resultados que colocariam a empresa na via dos resultados satisfatórios dependem da cumplicidade para com os resultados benéficos a empresa. Não sou um especialista nas metodologias ou ciências de governamento de empresas, mas percebi que todos os veredictos responsáveis pela continuidade do andamento das negociações dos agrorecipientes caiam nas mãos de Pignat. Pelo menos foi o que observei ao negociar centrais de comandos para portões elétricos. Isso, é claro, sem deixar de notar as continuadas insatisfações de funcionários e clientes daquela loja de matérias agrônomos. Pignat era descendente direto dos reprincipiantes italianos, mas isto já provocava deduções desde o instante que escutei seu nome ser pronunciado – as confirmações posteriores reforçaram minhas conclusões. O balcão onde eu esperaria por mais de duas horas, ate a conclusão do atendimento era próximo do pequeno boxe com birô de Pignat. Não foi muito difícil retirar-lhe umas poucas palavras de “como está o movimento na loja ou “se o clima continuaria a ser chuvoso e pálido”, estes pormenores que nunca caíram em desuso e que sempre foram os melhores recursos  para qualquer fretamento de silêncio. Não menos que isso, ainda vem com uma carga de princípio de prosa, aos moldes intencionais do “era uma vez”. E era uma vez um cidadão, um funcionário duma loja de material agrícola, de um recando do Largo da Concordia que, repentinamente, esqueceu que deveria ser aquilo que estava recebendo em capital monetário, para ser um atento ouvinte de uma serie de\perguntas de pouco sentido, pois suas respostas já estavam em elucidadas com a vista. Que se diga com total vigor de verdade, a dissonância dos sotaques sempre ganharão destaques nas percepções dos fenómenos linguísticos. “E de onde?” Foi neste ponto que minhas identidades serviriam para confundir a mim mesmo. Pois eu pertencia a São Paulo em nascimento, em vestígios de sotaque, em vestígios genéticos, em firmamento de nacionalidade; contudo pertencia a Pernambuco em abraçamento, em vestígios de sotaque, vestígios genéticos, em firmamento de nacionalidade - acredito que o mesmo fenômeno se aplique em cogitações empíricas sobre sociabilidade de sotaques. Estava o descendente de reprincipiante atento as prosaicas empatias de outro reprincipiante, mas mais atento estava aos distúrbios de trapezista que, modestamente, mas tão discreto, montava em sossegados minutos um compacto trapézio, com quatro suportes que se afixavam ao da calçada em frente a loja de matérias agrônomo, peripécias menos audaciosa do que aquela que costumamos ver em armações de grandes circos, porem mais audacioso, pois era capaz de transportar seu trapézio para onde quer que fosse. Não é desde este exato momento que se percebe que aqueles que menos recursos tem, são de fato, aqueles que com mais ímpeto substanciam o que transcorre em sua imaginação. “Tem muitos destes artistas por aqui, ” afirmava Pignat ao perceber que os rodopios e peripécias do trapezista chamavam minha atenção, e a atenção das pedestres, que aos poucos se aglomeravam e circundavam o trapezista, expectando num  poucos instantes, uns poucos minutos que fossem, para recuperar um fragmento de humor, um pouco daquilo que a afobação das rotinas nos furta sem que percebamos. Era com notório que com muita facilidade nuns discretos aplausos era arrancados de duas ou três pessoas, mas não demorava muito para que o aglomerado, que aquele instante já ia ultrapassando as casas decimais, percebesse que não existia punições para aquele que se rendem as tentações de um pouco de diversão entre uma escapada e outra dos olhos atentos do assim nomeados “patrões”, estes  adquiriram com transcorrer dos tempos, dentro desta cadencia de empregador e empregados, regras patrônicas, nãos muitos distante do discernimento das “santificações” das leis de vassalagem, notando que estes temores para com olhos onipresentes tenham diacronisados por séculos, saindo do medievalismo dos feudos até transmutarem em nossos centros comerciais. Dificilmente seria também o discernimento dos atidos jograis dos Artistas de Rua do Largo da Concordia, em um apelo mais sócio histórico diria que esta teimosia artística deixou ou deixará de existir. Visto assim, não farei uma análise mais prolixa do inconsciente de Pignat com sua relação ao meio em que trabalha, e nem tão pouco, acredito que este não desejaria mais que uns poucos minutos para recuperar seu humor e sua estima de existência, que talvez estivesse faltando em sua vida, não muito diferente ou distante, na vida de muitos. Éramos todos Cúmplices, e o que diria o Trapezista?

                                                       Edson Moura, em 11/08/2012           

                                                  

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