terça-feira, 25 de setembro de 2012

Indeterminações



                      “Como se um demónio subitamente explodisse,
                              uma fumaça de enxofre e de cinzas levantou-se-nos de permeio,
                              separando-nos um do outro.”
                  
                              Vergílio Ferreira

As indeterminações são, de fato, as melhores colaboradoras para a intensificação dos eventos que nos certam. As incoerências dos acasos são mais verdadeiras e, por mais controverso que esta afirmação possa parecer, são mais coerentes do que possamos imaginas. Não lembro o nome do hotel em que me hospedei, só carrego a certeza de que não cotava com as mesmas acomodações de hotel quatro estrelas, não importava muito, hotéis para sacoleiros – designação usada para referenciar ambientes que acomodem compradores que vem de longe a desfrutar dos baixos presos de mercadorias comprados em atacado. Iria pernoitar ao lado do que havia restado de economias de cinco anos de trabalho. Percebi, estando ali, naquele quarto, com um espaçamento de cinco de largura por seis de diacronicidade e dois e meios de sincronicidade, a capacidade que um sacoleiro tem de aproveitar os intervalos das dimensões de ressinto. O pensamento evolucionista ainda continua a mostra que a intrínseca postura de nos adaptarmos aos meios é o melhor exemplo. E de fato não se tem mais notícias de outras teorias de contraponto. E de fato tenhamos estado, desde tempos de remotas lembranças, sempre em contato com esta quase verdade; São os relatos escritos por imigrantes, retirante, desterrados ou exilados as mais belas crônicas, pois surgiram das estranhas reações a um meio no qual nossos pés nunca pertenceram e pela necessidade de sobrevivência, o “mais” é aquilo que o dinheiro e a oportunidade podem oferecer. Que esta breve controvérsia pode e deve ser desconvencionada, desfeita pelo sistema de regras que regem convenientes, que o simples ato de rebeliar-se contra as regras é o mais produtivos de entre todas as vias que conduzem ao amadurecimento daquilo que estimamos por conhecimento, Sempre existirá o sujeito indeterminado, até o dia que for determinado seu fim, e, além do menos, subtrair esta lógica é determinar o fim do escritor cronista. Foram as indeterminações, esta pequenas personagens que se escondem por trás dos nonos espantos que irão colaborar em relatos sobre os cotidianos. No mesmo quarto, com os diâmetros minimizados pela quantidade de caixas aglomerados pelos cantos, posicionei a cama próxima da janela que apontava para Rua Bom Retiro, ou o que restava das movimentações do dia. “Rua Bom Retiro”, este nome ficou em minhas lembranças: retiro de vozes; retiro de bem aventurados – ou mal aventurados, viste a impossibilidade do discernimento de ambos; retiro de “Retirantes de Rua”, ou de outros retiros. Já não eram os movimentos do comercio que se podia ouvir, foi através da calha d’água, que espinhava até o térreo do prédio, onde as vibrações sonoras se ampliavam e podia escutar toda a movimentação da noite, de um pequeno fragmento deste não tão pequeno cosmos que é o Brás. Falar de solidão não uma temática apropriado ate o momento em que estivermos no meio do mais arenosos dos desertos, evidentemente eu não estava em um, e nem tão pouco as almas que negociavam - antes que entre em cena outro contraponto -  dois dos antigos refúgios de prazer; o corpo e as substancias que afetam os disjuntores cerebrais, estes os mais lucrativos, em todo caso, não importa as réplicas o tréplicas da boa retórica, iremos procurar estes refúgios algum dia. Quem estava lá em baixo, as negocias destas duas formas de prazer, não eram as adeptos da boa moda; do bom conhecimento; do bom capitalismo; do bom socialismo; do bom comunismo; da boa educação; do bom paladar; das boas manifestações artísticas; da boa informatização; do bom amor; das boas relações. Havia um Bom Retiro de almas confusas, distorcidas, não eram mais aquele operários que deixei para trás em um último olhar antes de meu reprincípio no Norte brasileiro. Ali, no Bom Retiro, corpo e alma se recolhiam no mais fúnebre dos calvários: Bom Retiro do Corpo, aonde este vive, aonde este morre, aonde as ferida pucificam as lágrimas agrestes. Eu escutando, através das vibrações sonoras de uma calha d’água enferrujada, quem sabe pelo transpassar de almas que continuavam a caminha sem saber por que caminham, indeterminadas como deve uma morte de alma.

                               Edson Moura, em 11/08/2012 (noite)

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