sábado, 11 de agosto de 2012

Ao acaso literário - II parte


    “Estamos sitiados pelo universo das Criações, não há como escaparmos.” A sentença que inicia este texto e uma partícula microscópica, uma célula, que faz parte do tecido de um órgão incrustado por mistérios chamado CRIAÇÃO LITERÁRIA. Não é fácil encontrarmos uma resposta para as grandiosas perguntas que afaga, de maneira áspera, a cognição dos que se debruçam incansavelmente no trabalho árduo de produzir seus poemas, contos, crônicas e, “por que não”, um romance: “Será que meus escritos são bons?; Tenho talento para escrever bons textos literários? Devo expor aquilo que escrevo?”. Inquietantes questões como estas, para meu alivio, também fazem parte de colegas que conheço e que tentam, de alguma forma, conceber e publicar suas Criações, não estou só, agradeço. 
     A metáfora que intitula este espaço, “Ao acaso literário”, combina duas vias sobre o qual o escritor apóia-se para transmitir significados, forma e conteúdo, ambas inseparáveis. Poderia usar termos padrões para nomear este blog, mas me perderia num ciclo fecha de sentidos. Poderia iniciar a apresentação com “Este blog...”, preferi utilizar “Esta Rua...”, pois esta palavra comporta um espiral de significados: numa rua há casa; nas casas existem pessoas, onde interagem conflituosamente. Vez ou outra, os personagens deste “palco” saem de suas casas e se congregam num batente para conversar sobre as infinitas histórias do seu cotidiano. Estas, a nobre matéria-prima para a construção do Texto Literário.                                    
       A descoberta de uma resposta para algumas perguntas que ressaltei pode estar na simplicidade como escrevemos e não no grau de complexidade a que pretendemos expor. Escrever bem é estar em sintonia com o nosso mundo, com nossos desejos e estar disposto a fazer sacrifícios, construir um tempo para trabalhar as idéias que surge; vencer as inseguranças e “libertar nossos demônios”. Numa contabilidade cronológica que se estende entre seis ou sete meses, aproximadamente, tive contato com um dos maiores tratados sobre literatura contemporânea já feito.“As seis propostas para o próximo milênio” de Ítalo Calvino. Este prontificou uma série de previsões, que para muito “Escritores de Gaveta” indico como uma ótima suplementação literária. Numa rápida leitura desta obra, pude perceber que estava caminhando corretamente nos meus trabalhos, e aquilo que compartilhava com meus colegas, esboços de quem esta começando, solidificava palatinamente, pois a “leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência”, elementos proposto pelo autor, explora com profunda elegância o lado simples e criativo dos novos escritores. Fatores que não percebemos e que estão sempre vagando em nosso consciente podem fazer a diferença: escolha de um vocabulário pronto para ser compreendido por uma diversidade de leitores, veteranos ou iniciantes, também deve constar na bagagem da Criação, sensibilidade para observar o que estar em volta de nós. Entretanto, falar de sensibilidade requer explorar não somente o que esta em nossa volta, mas explorar o ser humano que somos. A arte de escrever molda com as palavras aquilo que há em nosso espírito, aquilo que temos de mais profundo. Talvez por isso, em muitos casos, tenhamos certa preocupação em expor o que escrevemos. Acredito, assim como o escritor pernambucano Raimundo Carrero, que o que realmente move uma Criação a se manifestar é o trabalho continuo (exercício de pulsação). Não basta ter uma idéia. É preciso toca em sua matéria, moldá-la, lapida - lá e, se preciso for, recria - lá. A Criação pulsa e aos poucos ganha formas que podem surpreender ate quem a concebeu. O Eu lírico se solta, manifesta suas múltiplas fases, cada uma transmite um foco, a quem o escritor deve seguir. Os personagens, estes sim, começarão a povoar o imaginário, concretizando-se através dos substantivos e adjetivos, estas classes tão descriminadas por sua função meramente estrutural nos cruéis livros didáticos - espero não estar sendo um pouco injusto, é na grade verdade os elementos que alicerçam uma personagem, e, conseqüentemente, fará surgir a ambientação e o foco de uma história, com suas imagens, conflitos e tudo que o criador tem por “direito literário.”O sentido que colocamos nas palavras vai muito além de sua forma. Para exemplificar o que acabo de discutir tomemos a sentença que inicia esse texto: “Estamos sitiados pelo universo das Criações;” estamos é verbo conjugado na primeira pessoa do plural, mas se posicionarmos nossa atenção para o que essa palavra representa, veremos que ela fala de nós, seres humanos, de nosso espírito, nossos conflitos internos, tão necessários para instigarmos nossas produções; sitiados não por um exército a mando de um governo, mas por imagens que afluem para nosso imaginário, as metáforas, estas transladando a lógica dos significados concretos das palavras e enriquecendo-as com outros sentidos, diversificados, flexíveis e interpretáveis; universo não é só um substantivo, é tudo aquilo que vemos que sentimos por estimulo, o que nos cerca, onde nossos passos se apóiam para captar e registrar o que acontece a nossa volta; Criação teve sua consoante inicial maiusculizada, assim feito dei a esta palavra propriedades vivas (próprias de uma personagem), não é ela, agora, somente um substantivo. Ganha formas na mente de quem a escreve ou do quem a lê. Pequenos detalhes fazem realmente a diferença. Ter a generosidade para atribuir grandes significados a simples elementos do nosso cotidiano faz parte de um bom texto. Lembrando que forma e conteúdo são inseparáveis, uma consoante a outra para atribuir beleza a obra. Escrever literatura é um “impulso”: disposição, conhecimento de nós mesmos, de nossas linguagens e muito trabalho. Resumindo este texto com as palavras de um grande escritor: “Somos todos escritores, só que uns escrevem e outros não.” (J.S.). “Mãos a obra.”

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