domingo, 22 de julho de 2012

Sufixothymia





     Então a segunda-feira se passou, assim como a terça, a quarta e a quinta. Sobre cada um daqueles dias pairava uma sombra de silêncio, de comer e de conversar e de repousar no sofá como sempre.
                                                                                                          V. Woolf
   
            Acordei no meio da noite, reclamando da noite, depois de perceber ou sentir que ela mesma não sabia ser noite, ou era eu que pelo fato de não conseguir dormir, invejava aquele que dormiam e nasceram com certo dom de perceber que a noite existia. Acordei reclamando como era o costume, havia livros espalhados pelo tapete – não me lembre daqueles livros, por conclusão da preguiça não queria me lembrar. Estava salvo daquela questão, e como poderia pensar diferente, para que livros, por mais que eu os leia não irei pegar no sono, amanhã tem sessão no psiquiatra, um homem que ri da tristeza, seu dinheiro, sua carreira, sua alegria, receberei mais um aperto de mão, receberei mas sua assinatura no receituário. Receber, receber e receber. Existe por claro, uma diferença? Claro que sim. Receberei de boa vontade; receberei com má vontade; receberei a troco de receber um dia algo em troca, e também receberei com escarnio, com maus dizeres fingidos, pois também fingimos a raiva. Não quero receber, mas recebo. Aqueles livros, um presente de alguém que não lembro, eram de russos, que já morreram, que estão podres, que enriqueceram a terra com chorume de seu corpos, pelo menos isso. Tenho sorte de não ser russo, mas sinto medo, já deveria estar acostumado com meus temores, não me acostumo, não me encontro neste mundo, e nem deveria, ora!!! É o meu mundo e ninguém pertence a ele, mas se assim for, estarei só, e não terei a quem reclamar minhas lágrimas, estas a noite domina, que me escravizou com tamanha crueldade e fúria. Onde está o Ser que comanda este universo, onde?! Confesso, é claro, pois não sou totalmente devoto da hipocrisia humana, pois sinto frio, o frio dos astros. Gozei dos prazeres frios, destes que todos gozam friamente, acredito não há mais amor, mas não acredito por não acreditar, e sim porque acreditara nos outros, que são humanos, que são crianças, que são homens, que são mulheres, que gozam e ejaculam, que são humanos, e por fim, se desfazem no meio da noite como espíritos enfermos. Suas palavras, já não tem mais sentido, quem é essa tal de noite, afinal. Que me roubou o sono, que me incide em procurar um conforto em seu meio quando não há mais conforto e assim rebelar-se contra mim mesmo, que me tirou as cores, me deixando crômico, crônico, cronotacógrafo como um braço de um cirurgião que se posiciona em milímetros numa bamba da vida alheia, no lá e cá enquanto os tubos anestesia adormecem seus rancores. E minhas lágrimas, onde estão minhas lagrimas que se escondem neste mundo, não é mundo, é uma estrela entre bilhões de estrelas, a bilhões de anos luz de qualquer estrela em formação ou e decomposição cósmica. Sim, confesso: gosto deste cosmo, gosto mais do que a certeza, do que o alheio e as falsas temperanças. Condeno, por isso serei condenado, mas o que importa se estou quase morto, um a mais, um amenos nos obituários não fará diferença, quero a noite apesar de odiá-lo, pois o fio dos gumes faz sangrar o mesmo sangue. Pergunto a noite o que é sangue a final, uma metáfora? Um líquido rubro que faz lembrar colorau e água? Acredito que a noite deseja sangue, se é o meu? Ainda não sei. Se quiser o sangue dos outros, melhor, pensa meus pensamentos, e pensa bastante. Será estes pensamentos de todos aqueles que a noite faz pensar. (...),(,,,),(!!!),(???). Já que a noite esqueceu que tenho sono, que tenho sonhos, então não dormirei, teimosia, rebeldia, irritação com o dia, com a tarde, o que resta? Os pontos, os cominhos: norte, sul, leste, oeste, nordeste, sudoeste, centro-oeste, ao sul das cordilheiras, as constelações já não me guiam, pois faz parte da noite. E essa minha desconfiança da noite que me persegue, sempre e sempre. Quero o dia, o dia que caminha, o sol nasce, o sol morre, mas sempre nasce e sempre morre. Como aquele sol que certa costumava ver quando era pequeno, atrás da escola, atrás do oceano, que se escondia entre as folhas de uma castanheira, com sua fluência escoando entre as frestas da porta. E quando o dia era só dia, e a noite era só noite, quando o claro era doce e o escuro era quente. Confesso que sinto falta do barulho do dia e do silêncio do escuro, mas confesso que não existe sangue mais vermelho dolente do que lembrar como eram os dias e as noites. Quero esquecer que sou humano, mas não consigo.    

                                                                                   Edson Moura / Adrienne Myrtes
                                                                                                     

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