terça-feira, 24 de julho de 2012

Esmeralda Carne - II Capítulo



   Olhava para o vulto de cão que parecia temer-me. Estava acuado, quieto, rosnava como uma fera ensandecida. Foi repentino. Ao espanar dos seus pelos e apontamento de seus caninos, creio que estivesse com mais medo de minha presença, creio mais ainda estivemos ambos temendo um ao outro. De imediato, pelo sentir das circunstancias, não sei explicar, caso me façam a devida pergunta, os motivos deste não ter me atacado, suponho que estivesse com medo de minha presença. Estava escuro, céu pálido: com tonalidades amarelo e preto a digladiarem por uma plenitude. Pus-me em estática, se corresse provavelmente a fera saltaria em minhas costas, rasgando minha pele com mordidas e patadas. Como eu estava, tão anêmico e pálido como aquele estranho céu, não conseguiria correr para muito longe e nem tão pouco afrontar com o animal que insistia em fixa sua atenção raivosa em mim. Latia. Um ladrar surdo, como se estivesse dentro de uma caixa de vidro, com um som opaco, difundido apenas sua presença medonha: sua sarcástica e natural plenitude. Era tão vivo quanto eu. Seus olhos brilhavam no gládiamento das cores noturnas. Senti minha vista e meu estomago nausearem, o ar desaparecendo. Sufocamento. O chão era de arenoso, tanto que meus pés afundavam só com o peso e consistência de meu corpo. Meus braços também estavam imóveis, como presos em correntes invisíveis. O cão começou se mover de lada para o outro, com movimentos compassados, uniformes, a rosnar com maio intensidade, ate que de súbito coiceia suas patas ao chão, avança e salta sobre meu debilitado corpo.
      Conclusivo são as dificuldades de forçar lembranças de sonhos, mas estes repelia na sua memória frações de imagens distorcidas que com o passar das horas Vânia aditava ao conversar com sua confessionária amiga que, pelo teor de alguma circunstância de menor primazia, havia chegado mais sedo ao setor de embalagem da granja. E nos vinte primeiros minutos do expediente matutino, pós a conversar para os ouvidos da amiga, que não tinha, naquele instante de trabalho, intenção de interromper sua atividade repetitiva de embalar na maquina de vácuo os estojos com os ovos que corriam impetuosos sobre a esteira da granja. A confessionaria não lhe dava a devida atenção, preocupada com sua função, mais ainda, com o supervisor que naquele dia deveria ter, antes de sair de casa, não demonstrar afetuosidade com os empregados da granja. Enquanto manipulava o plástico, ai contando para a amiga sobre o estranho sonho que teve: o cão que rosnava em pavores, o corpo que se movia, os sons que não escutava, as cores que permutavam em uma degrade confuso a provocar-lhe um confuso sufocamento de ar e seção de vômito mesmo em um sonho e uma raiva soltando sobre seu corpo desprotegida.
      Não demorou muito, o supervisor, em cima da plataforma gradeada, perguntou rispidamente os motivos da coversa entre as duas. A confessionária então, como por demonstrar suas preocupações com Vânia, pediu-lhe que tivesse um pouco de paciência, e que após o expediente falariam sobre o assunto. Poderia ignorar as histórias de Vânia, “histórias sobre um sonho, por que deveria me preocupar com essas coisas,”pensava, mas não deixou de notar o teor de apreensão da amiga. “Depois do expediente conversamos, não quero perder o emprego, ainda tenho umas tantas dividas para pagar e o supervisor não dá a mínima pra gente, te aquieta em tua tarefa mulher besta ou vamos pra rua”. Vânia retoma suas atenções para o movimento da esteira que não iria parar até o termino dos turnos. As imagens do cão raivoso descansam afinal, ao pedido das necessidades de um emprego, sempre há prioridades que nos chamem mais a atenção, e estas estavam nos queixumes da amiga confessionária.                
      Cai o vespertino. Vânia acende um cigarro para diminuir a ansiedade do dia, visto que a própria fadiga do trabalho trataria de por seus pensamentos em descanso, deveria iniciar a conversa com a amiga, mas o suposto diálogo que deveria ter com a confessionária sobre o confuso sonho não aconteceu. Visto que traumas por sonhos ruins diminuem com o passar das horas e do dia, restando apenas a expectativa de voltar segura em casa. Sentadas nas primeiras poltronas do coletivo, observando, caladas, a movimentação das luzes das casas e edifícios que atravessavam em sua vista. Lembrava dos olhos fixos do cão do sonho. Mas disse nada a amiga que estava tão pensativa quanto ela, é certo o silêncio incomoda mais que um tumultuado vozerio: “E as dores de cabeça que estava sentindo, já estais melhor, tomaste o comprimido que te mandei”, interrompia o silêncio com uma pergunta, por demais, relevante em se tratando de preocupações com a saúde de Vânia. “Tomei, mas as dores não passaram, fui ao médico ontem e ele me recomendou fazer um exame de ultrassonografia do corpo inteiro,” respondia em tom direto à amiga confessionária, sem preocupar-se com supostas queixas que, deveras, iria acontecer na mais conveniente das possibilidades afetivas. “Você foi ao médico fazer exames, ele lhe pediu uma ultrassonografia de todo o corpo e a senhorita ‘sou capaz de fazer tudo sozinha’ não me diz nada!?, repelia a amiga, como Vânia, naturalmente, já deveria esperar.
     O ônibus interrompe sua trajetória com um sopapo de freio. Todos se levantam e amontoam na saída. Ambas se levantam e dessem. Caminha através das ruas escuras. Vânia escuta o latido de cães, presos as varandas das casas, sons que está acostumada a ouvir todos os dias e na mesma hora. Não tardou segundos para lembrar do sonho. Já anoitecia e a realidade parecia transmutada aos sons de latidos descompassados de animais que a ela não pertenciam. Não distante de um déjà vu medonho, a colocar seus batimentos cardíacos em aceleração, escutando a amiga repetir de maneira enfadonha à mesma pergunta, “foi ao médico e não disse nada, e ele lhe pede um exame deste só por causa de uma dor de cabeça?”, “ele é um médico experiente, com toda certeza sabe o que faz, se ele me pediu uma ultrassonografia então eu não iria deixar de fazer”, a replaca de Vânia calou por instantes a preocupada amiga. Se despedem, cada uma toma o rumo que devem tomar. Vânia entra em sua casa, todos da família dormem sob o conforto dos cobertores e protegidos na inocência do sono, distantes das vertigens do mundo em transição.
       
        Escondida, sem olhos a ver suas artimanhas com os segredos que, certamente, deveria tê-los e antes de qualquer frivolidade começa a ler mensagens contidas no celular vindas de seu parceiro, em um difícil relação que há meses não solidificava. Deve ser admitido, ela exigia um pequeno direito; se deu-lhe vários instantes de prazer, sua pele, seus libidos aos toques compulsivos de quem buscava intuitivamente o gozo da ejaculação de seu pênis, ambos ocultados por suas exigências egoístas: ele não queria, naquele complexo jogo de conveniências, que ninguém soubesse que estavam se encontrando sob a tutela dos segredos, distanciados do compromisso irresoluto de tentar possuir um ao outro sem que ninguém tomasse conhecer a relação, em resumo, eram amantes em horas que esqueciam, por prazer, do restante da vida. Mas se ainda se procuravam é fato que um dos dois desejava que não existisse segredos.Ao nascer do sábado, Vânia acordara com a mesmo dor de cabeça que vinha sentindo há dias.
         Ao nascer do sábado, Vânia acordara com a mesmo dor de cabeça que vinha sentindo há dias. Correu para o banheiro e pós a vomitar um liquido amarelado, lembrando do sonho que teve, o cão raivoso novamente invadia seu inconsciente, noite ruim, sonho ruim. Sua goela latejava até não ter mais o que por para fora, incluindo nesta rejeição estomacal a medicação que a amiga confessionária tinha oferecido. Depois de alguns minutos naquele agonizante despejar de mucosas de comida, ácidos gástricos e bílis, retomou a consciência, não alarmando ninguém da casa. Levantou desequilibrada dos movimentos, olhou seu rosto suado e pálido no pequeno espelho que estava próximo. Pela lógica advindas dos sintomas: estava muito doente. Pela debilitação em que se encontrava, não iria ao trabalho, não conseguiria plastificar uma única caixa de ovos. Poderia adiantar o recebimento dos exames, ir até a clínica ver o veredicto do médico, ouvir recomendações e comprar a devida medicação. Seria prospera na retomada das forças se assim o fizer-se. Pouparia a paciência da amiga, que naquele momento já deveria estar na seção de embalagem de estojos de ovos. Seria a primeira manhã de sábado em um ano sem sentir o odor da granja; talvez, pensava, tenha sedo isso: o contato com aquela atmosfera de penas úmidas, algum germe a causar uma súbita infecção no estômago, os aparatos químicos usados para engordar as galinhas. Confortava-se enquanto esperava o coletivo no ponto, sentada, tonta pela náusea que sentia. Apoiava-se em tudo que podia servir a sua falta de equilíbrio. Amparada por um ou outro obsequio, da gentileza altruísta.                                                                                                                                                                                                                                                
  

         

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