domingo, 3 de junho de 2012


Testemunha  
         
          Ao seu lado, de olhos fechados, o homem que compartilhou suas vontades, suas dores, suas alegrias. Antes do sono, ela o observa por breves instantes, tranqüila e serena ao ver sua calma, sua respiração. Sempre foi assim: o cuidado de vê-lo dormir, sempre. Conforta-o: sua cabeça deveria estar bem acomodada no travesseiro, o lençol encobrindo seu corpo, impermeando-o pelo frio famélico daquele anoitecer vago. Antes que o sono a conforte também, as lembranças do dia e do resto que lembrava. Agora ambos adormecem, silenciosamente...        

          ...ninguém podia ver a estranheza de sua presa. Corria solta através das pequenas ruas de sua cidade. Causadas vazias, pouca luz, sem duvida, poucas sombras para testemunhá-la. Pensava consigo “seria noturnamente tarde, madrugada talvez.” Noção das horas ou dos minutos desconcertadas. Quem a visse, diria loucura obscura, demência ou qualquer súbito distanciamento de suas próprias faculdades humanas, ela mesma, não reconhecia a si própria, na pele de uma criatura qualquer, sua alma sombrosa, e não distante os ruídos sem nome que embriagavam seus ouvidos.  Não sentia qualquer tipo de medo ou entusiasmo. Esses dois tidos de sensações se aproximando quando ela tentava esconder-se daqueles que a perseguiam, mas não podia vê-los, e o pulsar do coração acelerava a medida senti alguém se aproximar. De súbito aquilo que a prosseguia calava-se, como num leve susto. Os sentidos que estavam silenciados agora a circundam. Não mais aquele oco de antes. Sentia medo, mais do que entusiasmo, estava acuada por aquilo que desconhecia. Faltavam-lhe respostas, a memória opaca, sem lembranças de onde vinha ou do que procurava. Só corria, desenfreada, suas vontades rígidas obedecendo apenas aos comandos marionéticos de alguma instituto fora de sua vista. Suas vontades entorpecidas e controladas por um estranho que não podia ver; ouvir; nem tocar. “Quando se estar só tudo parece estranho como as deformidades de um quadro inacabado: cores incompletas, molduras inadequada ao que realmente se pretende desvelar, e, principalmente as moléculas do espírito aprisionado”. Ela já tinha ouvido estas palavras ante, eram lembranças de alguém que a via, que a sentia. Corria, apenas. Só corria. Seus pés, com uma brancura que só mortos tinham, se moviam rapidamente, direito e esquerdo, um após o outro. Ela, hipnótica, os olhava com sonolência, a vista embaçando lentamente. A cabeça gesticulava parvos movimentos. Por estranhamento do seu próprio corpo, só conseguia olhar para frente. Seus pés não tramitavam diálogos com sua mente, os passos eram negados cada vez que os desejava. Nada de motivos ou respostas, só corria: para frente, para direita e para esqueça. Vestia roupas leves, quem a visse, naquele exato instante, diria que era descuidada com a aparência, em verdade, vestia-se como alguém que dormia. Não podia olhar para baixo para ver o que estava usando, mas o pendular dos braços e pernas mostrava-lhe o luzidio da ceda que era feita seu vestido. Pensava insegura se as casas que via eram realmente de Belo Monte ou de outra vila próxima. As memórias não falharam quando a defrontou das residências conhecidas. Mais estranhamento, reconhecia as residências, mas todas fugindo algum ordenamento. Algumas estavam em ruas diferentes, outras desconjuntadas, como se alguém as tivesse colocadas em baldios que nunca existiram, sozinhas, distanciadas dos outras, estas, movimentavam-se como peças de um xadrez, controladas por alguém que conhecia a cidade tão bem quanto ela mesma. Aquelas casas, substancias eretas, mudavam de lugar cada instante que suas pupilas caiam em descontrole, repentinas piscada de olhos. Negava consigo ser aquele lugar a cidade que conhecia. A igreja sem teto estava mantida no mesmo ordenamento de antes, no centro de tudo, pelo menos esta estava. Sua vista sempre produzindo enganos, deformidades no que via. Ao longe podia avistar a umidade brilhante de uma chuva que não deixou rastros naturais: nem frieza, nem acinzentamento no céu. As plantas em sua volta, todos secas como antes, como sempre foram. Algumas algarobas que ornavam a pequena praça, com um verde-pálido nunca visto por ela antes. O chão calçado com pedras disformes: algumas com a forma de retângulos alongados, outras minúsculos quadrados, a maioria sem descreverem suas formas, tamanhos ou cor. Não era o chão que sempre gostava de sentir, morno e confortante. Ela agora sem tato, não sentia as próprias mãos, sem controle de seus dedos. Os sustos que sentia, cada vez que as aparências enganadas a levavam a uma incerteza. Os batimentos do coração estavam serenos. Temia isso, pois se já não sentia as próprias mãos, não deveria perder o coração. Este ainda pulsava. As ruas se movendo, formando novas ruas, acostumava-se com os novos contornos que a cercavam, com o novo que via. Esquecera a racionalidade ríspida que movimentava suas angústias e questionamentos das novas formas que estava vendo. Estava só, não sentia-se mais afetada pelas repentinas deformidades da cidade que sempre a acolheu. As construções eram as mesmas, mas para si não o eram. Não repugnava nenhumas das duas certezas. Apenas estranhava-as. Sempre correndo, sem cansaço ou perda de vitalidade. Sentia-se morta, se estava provavelmente não houve despedidas, melhor assim. Sempre desejou que sua morte fosse um repentino acaso. Sem despedidas lerdas, sem últimos perdões ou qualquer ritual sacro, realçados de um sofrimento comum a todos. Conturbações, onde estavam as luzes que guiam as almas para a completude do ciclo da vida: nascimento, amadurecimento, mortes e medo. Decerto estava desgarrada das outras, presa nesse limiar que tinha a aparência de seu aconchego. O céu perdera suas formas fantasticamente ditadas pelos sacerdotes; era um breu caótico, sem anjos para guiá-la; sem espíritos etéreos contidos em uma servidão infinita, manipuláveis, com a danação como premio a insubordinação. O castigo que receberá, viver a deriva naquele vácuo, apenas com construções distorcidas. Procurava, desesperadamente, algo ou alguém que pudesse lhe comunicar umas poucas informações. Gritava sem conseguir ouvir sua própria voz. Nem sequer escutar um ruído. A impressão de estar dentro de uma gaiola de vidro, intransponível. Sua voz não seria ouvida através daquela penumbra que a cobria como um manto. Continuaria dividindo suas angustias com o vazio das ruas. Realmente, poderias estar morta. A imobilidade de seus membros denunciava uma suspeita que inominável fatalidade sucedera a ela. Sua cabeça tonteava náuseas repentinas cada vez que tentava tocá-la. A insistência culminava em angústia repentina. As passadas aumentavam e diminuíam continuamente. Sua visão, cada vez mais escuras. O vento não soprava, tão pouco produzia zumbidos. Não tinha vento. Estava enclausurada no seu próprio lar, sua cidade. Infância sem sabor, maturidade sem sabor, velhice sem sabor. Tudo havia desaparecido. Não seria tristeza nostálgica, rancor ou qualquer sentimento guardado. Aos pouco as pessoas saiam das casas, uma a uma. Estavam todas bem vestidas, trajadas para alguma festa. Ela não parava de correr, desta vez mais lenta, expectante, queria ver algumas feições, algum rosto que pudesse desperta familiaridades. Não estava cansada, mas queria parar e descansar. Não conseguia parar. Gritava, mas ninguém ouvia. Os rostos ainda não moldavam formas de rostos. Ela via os vestidos nas mulheres, branco sem reluzencia. Eram ornados com uma beleza sem sublimação. Os ternos dos homens, alguns escuros, outros brancos. Algumas conversando mutuamente, outras olhando em sua direção, apena olhando, caladas. Movimentava seu pulso, uns acenos, nenhuma reação. Silencio recíproco. Não havia sorrisos ou tristeza, em verdade, seus rostos ainda estavam disformes, desafeiçoados, somente um circulo negro na fronte. Não via bocas, narizes ou olhos. Aos poucos via o final de uma rua. Inexplicavelmente, os membros superiores se flexibilizavam, a dormência da voz, vagarosamente, terminava. Sentia seus braços se moverem, desta vez, por sua vontade. Apenas as pernas continuavam insurgentes. A levavam a um baldio opaco, não havia postes, sem luzes ou som. Os contornos afunilando-se e rodopiando até formar uma pasta de cores sem coesão. A mente caia num buraco que surgira do vazio. Caindo cada vez mais rápido, numa vertigem dormente, silencioso, os sentindo surgindo aos pouco o tormento de estar acordando daquela vertigem...tonto...tonto...        
      
       ...ao seu lado, de olhos fechados, o homem que compartilhou suas vontades, suas dores, suas alegrias. Uma mão sobre o peito, a outra, com a aliança, estendida através da cama, veemente, querendo alcançá-la, querendo acordá-la.  A boca aberta, feições de dores ou um ultimo pedido. Não respirava. Ela acordara dum sono profundo, despertava daquele sonho angustiante. Ele, agora, descansando, dormia um sono profundo, eternamente. Ela era a única Testemunha.                 

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