sexta-feira, 1 de junho de 2012

       Monocrômico  (conto)


     - Posso contar um pouco sobre seu sossego, naquela tarde que deveria comemorar suas bodas de prata.
     - Conte-me então, ou será que temes, por sua insubordinação celestial, um castigo penoso, talvez?
     - Contarei sim, se é isto que deseja, pois não tenho nada para temer, não existe castigo. Eles são os que se castigam.
     - Os Homens?
     - E também seus descendentes.
     - Todos?
     - Sim. Se não, quais seriam os motivos de estarmos aqui, a observá-los. Eles é que são livres, e não nós. Mas podemos olhá-los eternamente, despreocupados. Posso lhe contar agora, mesmo sabendo estamos proibidos de sussurrar em seus ouvidos o lhes aguada no nosso mundo.       
     - Então o que espera? Que o Céu lhe castigue ainda mais? Não use uma mente que não existe, fala como um deles, fala como existisse piedade em si, para torturar-se, não eis um Homem. 

   - Quando a vi pela ultima vez estava sorrindo e pacifica consigo mesma. Sempre sorria, pelo menos quando não estava só. Havia um irmão e um marido, esses ritos que a consumavam em rotinas árduas de acreditar nos complacentes dos que detém os nossos versos. Agora restava pouco na casa onde morava, incumbida apenas em cuidar apenas de sua própria vida. O gesto de fechar a porta da frente, não regou as plantas dos xaxins como o rito mandava. O vento estava parado, sem som, sem respirar, quieto, separado dos outros elementos. As janelas do quarto estavam abertas, não batiam, não rangiam. Ar que não se movia, cantava-lhe uma sonata calma. Era noite, duma data que deveria comemorar seus contentamentos, de zelar pela gratidão de estar viva, mas estar viva, respirando com saúde, não iria trazê-los de volta, e algumas conformidades já não se faziam presentes. Gostava de sentir cheiro de chuva e de outros odores que a casa exalava. Contemplava sua própria casa como um recanto pródigo, um filho que cuidara desde o momento de sua chegada. O ar iria soprar naquela noite. Direcionava um sopro em sua direção, sua pele esfriava impaciente pelo frio. Acorda com a brusquidão de alguém que alarmara sobre os pavores da morte. Uma morte que não vinha. O descanso a deixava esperando, a cada noite de sua vida. Ao seu lado um espaço vazio, retirava-se decepcionada. Ela, embriagada pelo sono, levantou apoiando sua mão esquerda na cabeceira, a direita no espelho, cambaleante, tonta, valsando os passos no piso de cimento com mau acabamento, havia simplicidade em cada canto, em cada móvel. Casa antiga e muito pequena, a menor da rua, quiçá a menor da vila. Não ostentava novidades, televisão antiga, preto e branco, radio de válvulas, funcionando com perfeição, zelosa com os móveis, era assim que Ele queria, e ela a lembrar, quieta, sempre quieta, dos espaços entre os moveis, com os mesmos milímetros. Aqueles móveis que restava, preservações dos tempos em que as relíquias do casamento ainda acolhiam gosto, coisa de família, coisa que perdera a santidade. Representaria memórias, a cerimônia, o sacerdote pronunciando “até que a morte os separe”, irônica profecia. Os presentes vindos tanto de aproximados amigos, quanto parentes distantes. Não teve a oportunidade de ver algum dos momentos que o irmão mais velho transmitiu aqueles aconselhamentos, mas ouviu quando as histórias que saiam da boca dos visinhos fizeram ranhuras em seu contentamento. Era o mais velho, era o mais rígido em educação. Franzino de forma física. Volumoso nos discursos que brotavam durante as discórdias, se fazia necessária rigidez, estava direcionando argumentos para um espírito que transladava entre a ruína de convívio. As desavenças com o irmão mais velho, ela não deveria continuar com os planos de união com aquele homem, era o gosto do irmão. Que devia cuidar do mais novo, consumido por uma angustiante perda de razão, os sentidos esvaíram aos pouco, ate findar em absoluto desapego com ela. Nunca mais o viu, nunca transmitiu noticias, apenas certezas de estar distante. Optou por esquecê-la por definitivo; sem as discórdias; sem o mais velho. Se a possibilidade do novo trabalho permitisse. Permitiu. E sem temer as palavras que os outros diriam, partiu. Era o que ela mais temeria o desgarramento dos irmãos. Ouvi contos que vinham dos visinhos, ninguém além de vizinhos para testemunhar sobre seus erros ou felicitações. O licor amargo que degustou pela ultima vez, um degusto de alivio ou de inocência, não viram nada. Mas para todo ato insólito há um estranhamento. Ninguém podia prever que um súbito desgosto crescia continuamente; afogando sua alma num mar de decepções. Quando a vi pela ultima vez já havia perdido o sono e perdida entre a claridade que vinha da cozinha: a quietude da porta, do vento que insistia em calar-se, não soava os assobios corriqueiros de outrora e alguma melodia que metaforizava um sonho real. Investigou com lentidão o silêncio que parecia ser previsto. A claridade arranhando a lateral do seu rosto. A luz incomodava, havia o cheiro do querosene. Soprou a chama do candeeiro. A claridade da labareda tem a suficiência para o necessário.  Ela, de camisola, sobre pés eretos pelo frio morto, contemplava em silêncio o tempo que corria. Despertou no meio da noite, com a certeza que desejava, com entusiasmo, o sossego que a tanto lhe custou uma espera ácida. Descalça, queria sentir o chão, passos, repetidos silêncios. Conciliava sorrisos com lagrimas, mais silêncio. Por fim parou, olhou na direção do quintal. Tinha sede. A boca secara como uma terra carente de chuva. Os olhos, ainda remelentos, embasavam a vista quando as lagrimas queriam cair, e não caiam. Mergulhou a caneca dentro da jarra com água e puxou-a transbordando. Os famintos goles secaram a sede. Umas intrusas gotas de suor escorriam pelo rosto a acentuava um gosto salgado ao paladar. A salina da água junto com o cheiro da madrugada criaram os sons de domingos passados, como as volúpias de despertares sem as turbulências dos esquecimentos dele. Ela lembrava os momentos de intimidade, o gosto de sua pele, dos prazeres imensuráveis, inomináveis, assim como são as paixões. Risos pulsando soltos na noite que seguia. No caótico co mundo estava em paz consigo mesmo. Como se fossem ontem, quando ainda existia o coreto, onde melodias criavam o prelúdio da transmutação de menina para mulher. Casaram um ano após ser tocada, sem duvidas, cem planos. A certeza do futuro com a ansiedade prometia de abrasar os desejos. As lembranças correntes afagavam a túnica do desprezo que teve dos irmãos mais velhos. Estes negaram com a veemência astuta da cólera que tinha dele. O sujeito magro que freqüentava a habitar os nos intentos dos bandoleiros. Não trabalhava, nem estudava, só a vida nas festas lhe atraia. Tinha planos para ela. Já os irmãos sabiam de sua intenção para com ela. Assim, debruçada sobre angustias, uma a aceitação da vinda o estranho bandoleiro no cômodo da família, a única que tinha, a outra uma diáspora inesperado, como é de hábito da inocência, do âmago dos queridos. Pretendeu a segunda, e o fez sem hesitação. No despertar da conveniente lembrança faz pedes o esquecimento, tinha posto o café para ferver. O borbulhar continuos do licor negro mostrou que a temperatura da fervura estava no ponto para degusto. Uma xícara de porcelana braça com o a mistura negra entorpece o sono, um soro formado de faustos lamentos. Mas a noite insiste em penetra no seu espírito. Ria sozinha algumas vezes, como nos últimos dias riu. Ria com mais voracidade quando degustava em certas tardes dum punhado de minutos com os irmãos, ainda brotavam os ganhos dos sentidos, as brisas da existência rosavam a fronte dela. Olha para o candeeiro, o pequeno filete de fumaça saindo do centro formavam figuras sem formas, sem principio, sem fim, apenas formas, numa continua indecisão até a morte do calor que restava. As sombras se moviam com o balançar da pequena lâmpada pendurada no centro da mesa, uma lâmpada que não mais chorava luz. Ela sentada, ria e tremia com descompassadas cristais escorrendo dos olhos. A porta da cozinha continuava aberta, e continuaria aberta. A noite soprava medos e confortos. Um lugar existia naquele vasto cosmo. Estava perto, estava longe. Uma plenitude das fortunas rogava sua presença na solene natureza. Seu olhar tocava a luz da lâmpada. Embriagou-se pelo luzente ofusco. Sentia fome. Os pães mantinham a frescura do dia anterior, ponderava os sabores de pródigos momentos de jantares com a reunião de todos na casa: a dele, das risada e distúrbios e de símbolos de uma maternidade afogada pelo finitos instantes de visitas semanais, já não era mais semanais, eram em meses os encontros com os seres gerados por um imaginário morto. A esfera do acolhimento se dissipou no vasto tempo que crucificava os afagos dos acompanhamentos para o café, o almoço e os jantares. As roupas foram lavadas com afinco cuidado, a lousa não se amontoavam na pia, cumpriu seus deveres como os ponteiros dum relógio sem descanso. As solitárias risadas sempre a comunicar um nascente cristal de tristeza. Ainda assim tinha brandura para criar vorazes risadas. Os axiomas estavam presos nos cristais que caiam no interior da xícara, misturando com o licor negro que se esgotava, já havia ela despedido o sono do instante que estava a pensar se volveria a intenção de ir para o sossego ou continuaria dormindo, juntaria sua solidão com corpos celeste de outras noites. Em pé novamente na porta do quintal pasmava a aurora estelar que incandesce aromas passados. Os arrependidos verbos que proferiu contra os irmãos, aqueles das discórdias avolumadas num comum calendário de dez anos. Palavras e carne, duas substancias que se apodrecem com o fluxo do tempo, a carne é devorada por vermes dementes numa conjuntura de morte, nascer, morte outra vez. Palavras, assim como a carne, desfrutam de vitalidade, morte, nascer, morte outra vez. São vidas que escorrem da boca para saquear, apedrejar, esperar amparos, matar sem fulgor da piedade. Remontarias os cândidos verbos, para depois martirizarem-se no esquecimento. Ainda as lembranças furavam a carne do passado, e furariam mais, ate alcançarem o centro de uma alma turva. Pois, o pródigo mais velho avisou da turbulência que ela teria caso não renuncia-se a união das almas. As palavras tiveram a certeza de uma profecia que serviu para pronunciar a chegada dos ventos que espanariam os bons agouros de um futuro planejado, como a escolha de rosas sem pressa. As rosas podem ser escolhidas sem pressa, mas com apetite de paixão. Os vasos que serviram para adorno não serviram para as rosas, pois este fora quebrado num acesso para fúria. O que rosas sem os vasos que as acolhem, apenas promessa.   Os ecos das promessas parecem solutos caramelos que ao menor calor se desovem. Ela aderiu seus pulsos ao conformismo pela partida dos irmãos. Só restava ele. As opacas cortinas da união agora iriam se abririam para o ciclo da vitalidade continuar a moldar suas cênicas funções. Reconstruiria os desejos e as promessas para calar as profecias do irmão mais velho. Queria recriar o tempo perdido. O ar da noite continuava a invadir o espaço da casa, vazio agora, no presente que sucede o passado ainda vivo, ainda pulsante, com batimentos que a chamavam para um encontro com as constelações que a tela negra da noite asilava e ainda insiste em mostrar-lhe. A sua volta, um fundo com imagens, apenas, a prataria, os móveis, as cortinas, as lousas, tudo e nada. Não tinha mais as cores de antes. O pendular da lâmpada, que insiste em clarear um amarelo luminoso no lugar, mostrava caminhos para recantos que suas pernas negavam em ir. As molduras com fotos, cenas de um filme, de épocas distantes, lugar onde os sorrisos eram cristalizaram atrás de um vidro selado, como gaiolas que aprisionavam uma união, mas não aprisionou. Foi na rústica dureza de abandono destemido, de apocalípticos currais, onde cercaram seu sono. Da mansidão dos campos secos, com contornos de harmonias sonoras que os desejos dela fluíram. Ele tinha desejos fincados naqueles cercados de almas. Lugar de encontros passados, de satisfações momentâneas que fazem parte da natureza destes Homens, e continuara fazendo ate o dia em que cosmo não desfrute mais da presença destes. Sentia vertigens na presença dela.  Ela aguardava todas as noites a sua volta, sentada na rede de balanço, sentindo o vazio, como alma sem rumo. Com ansiedades de sentimentos não amadurecia com o passar dos dias, com vestidos engomados, e cheirando a ventos passados. Numa dessas esperas percebera que as profecias eram verdadeiras. A varanda secou, nem verdes continha mais as alegrias das plantas. Rosas não germinavam. O vento resignou as brisas que abalavam e misturava as cores da casa. As harmonias não escutavam vozes, nem zumbido algum. Passado sete dias daquela noite os sinos tocavam nuanças de badalos que corria para os ouvidos daqueles que estavam sentados na pequenina praça na frente da igreja. Ela ouviu os badalos. Estava agora presa a um vazio que desejou fazer parte. A terra absorveu sua matéria. As estrelas ligavam uma nas outras ate formar constelações. A lua mais brilhante, com sua claridade espreitando pelas frestas da porta via apenas a pequena xícara onde um resto de licor negro com o estrato amargo que lhe dera o descanso.

       
         - Não entendo os Homens, são tão frágeis assim?
       - Sim. Tão frágeis como devem ser. Se fossem como as Vespas, a abandonarem suas casas e deixa suas larvas a própria sorte.
         - Mas se assim fossem não seriam Homens.
         - É um pensamento otimista, não tente ser um deles.     


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