sábado, 2 de junho de 2012


Incógnito azul   
                                           
 I                                    
       Era verão, e o cheiro do mar ecoava através dos ventos que sopravam seus gritos nos silenciosos rochedos de Delfos. As ondas que açoitavam suas areis, estremeciam a solidão da ilha. Naquela tarde os feitiços da quietude começariam a ser quebrados. As histórias que contava sobre aquele lugar, vagas, distantes como as noites nunca vistas, nunca contadas, se fariam vivas em uma destas noites. Em sua plenitude de homem desconhecido o faroleiro que habitava suas encostas, guiando com um foco de luzencia cega as emanações que por ali nunca se atreveram a aportar, almas inermes que respeitava a mística da ilha, prosaria para seu próprio infinito uma enfermidade e um reencontro.                                                                                                                                       
       Ele, o homem que habitava o farol, viveria mais uma noite no Arquipélago de Delfos. Aquele verão seria mais caótico ou mais decisivo. Deitado em sua rede, estirado, esguio dos membros e tronco, olhos ressacados pelo sono, não estavam abertos por completo, mas notadamente sua cor queimada era aparente, uma cor que levara uma vida de plenitude contato com o sol para ser tonalizada. Contorce para a esquerda e para direita, sempre o mesmo movimento, repetidas vezes, inquieto de si mesmo, com as pálpebras entreabertas observando a parede caiada de um branco-sujo de toques de mãos. A luz do candeeiro o incomoda. Em verdade maior distúrbio sentia quando tentava aconchegar-se na rede, um aconchego que não vinha e que não sentia mesmo com o costume. E esta rede, feita artesanalmente com cordas de cinzal, quase partida, desfiada pelo repouso continuo de muitos dias, de muitas noites de muitas horas que se perdiam entre seu próprio presente. Um presente castigado por suas lembranças e permeado por futuro de medos.
       Mas haveria de confortasse disto. De esquecer que morria entre os minutos e horas que viva. Assim, antes mesmo de recompor a arquitetação de seus deveres no farol, já estava ereto, apoiando-se nas paredes, cambaleando, sem conter a lentidão do corpo, acabara de acordar. Sentia-se esmorecido, o farol iria esperar sua recuperação, os refletores funcionavam com perfeita sincrônica, de um lado para o outro, compassadamente, sem distúrbios de qualquer natureza. Uma noite sem a manipulação de suas mãos não faria diferença. Não seria naquela noite que as fatalidades de suposto defeito atrapalhariam seu descanso. Indiferente a qualquer responsabilidade ou distúrbio de saúde, o faroleiro escuta sossegado o som dos ponteiros do relógio da parede se moverem, seus batimentos anunciando a aproximação dos instantes em que se consumia em duvidas, as 7:00 da noite, precisamente.            
       Estava tonto pela febre que sentira durante a tarde, não comeu nada, mas bebeu a ultima garrafa de vinho que restava. Comemoraria em sua solidão a estadia naquele refúgio.  Há sete anos o homem que habitava o farol e perdera o fluxo do tempo para refletir sobre seu retorno a Barra de Santa Luiza. E não iria retornar ate o momento em que descanso e tranqüilidade perdessem o sentido. Um sentido enfadonho, que amargurava seus pensamentos. “Não deveria existir tranqüilidade”, pois esta o atormentava mais do que o seu significado anuncia.   Estava isolado de todos e de tudo, perdera sua identidade, não era mais o pescador que fabricava tarrafas em cima do Trovador – o único barco de médio porte daquela pequenina vila de pescadores possuía, por certo seria aquela embarcação franzina a única capaz de desempenhar o transporte de si mesmo do refugio em que se encontrava. Não era mais o homem austero que imperava solene em seu lar, provavelmente todos da casa já o tinha esquecido, nem era mais o semeador de sabedoria que indicava caminhos a serem seguidos nas reuniões da Cooperativa dos Pescadores. Ao que podemos remontar este último jamais deveria ter feito parte de sua vida. A Cooperativa, a pressa de sua partida não permitiu que fosse deixado um emissário de sua confiança, a família Monteiro firmaria seu legado, colocaria algum capacho para controlar as atividades, se ainda existir cooperativa. O Galpão dos Pescados o substituiu? Foi a promessa dos Monteiros, o dilúvio do progresso é mais estridente nos olhos dos despojados em inovações. E as possíveis recompensas que estes trariam, não eram do agrado do faroleiro. O Galpão dos Pescados traria desordem aos moradores da vila. Fincava este pensamento nos seus discursos em reuniões da Cooperativa. Era aclamado no passado, agora, desconhecia a própria veracidade desses ideais. Uma vila morta, a vida travestida em novos rumos, as memórias corroídas, tudo ao preço do Galpão dos Pescados. Os Monteiros, deificados, a dominar o comercio local, os barcos, os fabricantes de tarrafas, o passado da vila. Barra de Santa Luiza Deveria ser esquecida. Este era seu tormento maior, o esquecimento, pois haveria como esquecer.          

                                                                                        
II

         Ao fraque das pernas e das memórias, num desolamento do próprio corpo.  Ele deita na rede novamente, mergulhado nas duvidas, balançando de lado para o outro e consumando-se em ouvir o ranger das maquinas que moviam o refletor. O relógio tiquetaqueando no mesmo ritmo, o silêncio lá fora não deveria incomodar, sempre gostava da ausência de ruídos, tranqüilidade que impele para fora aquilo que está aprisionado. Rústico e imperfeito raciocínio de um pescador que fora afugentado de seu passado para um futuro sombrio e sem perspectivas. A paciência já não tolerava mais a demora. “A bendita Carta de Joana”, prometida, a ser enviada não chegou. Sua alma rastejando, implorando por uma notícia. Sete anos de espera, espreitando entre o vazio do Arquipélago de Delfos. Só natureza. Seria um paraíso se existisse entes para contemplar junto a ele a paisagem do lugar. O calendário na parede, o único que tinha, marcava 1991, ano que aportou em Delfos. Este foi o último objeto que recebera de alguém, presente de Joana, acompanhado com um “espero que se salve dos capangas de Guilherme Monteiro”, mais nada. Aguardava uma carta com notícias, não sabia de quem, se vinda de Joana ou alguém a sua procura, mas aguardava. Teimosia da imaginação, realmente quem iria fincar contato com um procurado. Uma alma sem destino, desgarrada do mundo civilizado por um infortúnio que culminou no seu desaparecimento. Ele mesmo já não se considerava um vivo, estava morto, a vertigem do desprezo que provocou, não provocara com intento, mas provocara.
         Os mais próximos apagados da sua presença, foi necessário, afinal, não desejava levar ninguém ao risco de estar num fogo cruzado com indivíduos mais poderosos que tinha enfrentado. Guilherme Monteiro era seu entrave, e as cenas de sua cova pairava em sua cabeça, vingança, palavra perigosa, tonta de sentidos, mas viva em cada alma que vivera neste mundo, ele era uma destas almas, tão comum quanto o silêncio que o cercava. Para si, não era o momento de lembrar da ocorrida contenda. Escapara por milímetros de um fio milagroso, teve sorte. Joana, onde estaria? A carta que esperava, A CARTA. Sem entusiasmo, um desvairado pensamento: - “Malditos Monteiros” “Aqui se faz, aqui se paga.” Fúria repentina, sempre tentando levá-lo a delírios. Estava condenado a carregar este sentimento, todos que se põem no caminho da vingança só tem descanso quando morrem ou concluem a jornada, mas aos que concluem a sórdida sentença, o arrependimento pode falar mais alto. Ele se perdera nesta alcova de medos, acolhendo-se naquilo que entendia como fuga. Expectante, perdido, como sempre, através de seus pensamentos. A memória produzindo soluçantes lapsos de inquietações. O passado, sempre ele, a espreitar, sempre vigiando, incomodando tortuosamente. Estava naquele lugar há muito tempo, estava esquecido, cultivando esta certeza para ele mesmo, sem a interferência de qualquer forma viva que pudesse estar ao seu lado. Há sete anos vivia, há sete anos morria. Sob a tutela duma solidão meditada como a única forma de sobreviver a quem ansiavam por seu desaparecimento. O desterro deveria ser momentâneo. Duraria o tempo que se leva para a memória esquecer uma cena de fúria, de vergonhosas imagens de loucura, sucedendo perante aqueles que o estimavam como protetor, de uma discórdia com uma grande maioria. “Uma decisão às vezes se molda sem planos prévios”, assim se concretizava suas vontades, seu exílio, sua prisão feita por vontade. Seu firmamento naquele farol, não intencionava um firmamento por gosto, por aptidão de uma profissão que estava longe de ser a sua preferida. Mas vez ou outra as vontades são negadas por circunstâncias que proibiam seus intentos de serem concretizados. E quando o desejo viera, feros, esmagador de preocupações, o homem do farol não pode firmar qualquer escolha. Algumas escolhas são como um sono pesado, difícil de escapar. Difícil de controlar. Ele a cair neste abismo calmo, simplesmente.

III 

     O susto de acordar nos meio da madrugada com o barulho das máquinas no porão.  Levantou da rede com brusquidão, o despertador avisou 2:40. As gaivotas se debatiam entre os rochedos, se firmando no conforto da noite como a natureza as programou. Ao corpo do homem do farol a sensação de atordoamento corria como um típico que ainda o incomodava. Costumeiramente uma leve umidade provocada por suor era secada por uma calma brisa noturna que soprava e atravessava as frestas não remendadas das janelas. Por alguns segundos sentia-se bem, alguns segundos. E estes se prolongariam ate perder o sono. O rangido das máquinas ensurdecia sua serenidade. Deveria descer os degraus, examinar o enorme eixo que o conduziria ate o porão, onde os motores estavam. Procurar o motivo dos rangidos. A noite seria acordada pelo barulho das engrenagens secas. Mas não como costumava acordar. A luz das lamparinas sujas enlourava as paredes braças da construção edificada no mais pontiagudo e desabitado penhasco da ilha. Em momentos como aquele, escolhia para consumar-se em resigno interno, profundo de si. O manuseio das ferramentas permitia-lhe entreter-se.   Esperando o pulsar das horas noturnas. “Barra de Santa Luisa fica pra lá”. Fitava a silueta do horizonte por alguns minutos ao descer os andares que compunham aquela edificação antes ir às funções de manutenção de máquinas. Minutos tranqüilos que pareciam castigá-lo. “As casas da rua de Marfim...” “e se ainda não foram derrubadas?”, “se em hora certa, surgiu um salvador com poder de ordenar as confusas situações que vigorou antes de sua partida?”. A vontade de voltar consumindo sempre que a tarde caia, agora era a madrugada que o castigava. Agora tinha um lar, “aquele farol” que a vista externa provoca a ilusão de ser pequeno, mas por dentro os espaços se multiplicam. Não seria a manutenção das máquinas que ira fazê-lo esquecer do que deixou para traz. Segurava a caixa de ferramenta lembrando uma época em que tecia suas tarrafas. A olhar o mar, despreocupado, sem contendas com alguém e tão pouco consigo mesmo.                           
       De fora do edifício - forma cilíndrica como uma e pilastra mesopotâmica- pode, a quem se aproxima pela única via que leva a sua frente, ver com nítida clareza, uma janela que circunda o topo de sua arquitetura, onde a luminosidade entorpecente de milhares de watts de potência guia as embarcações através das imperfeitas certezas de longitude e latitude. São poucos os que ali aportam. Desolação de vida? Talvez não, talvez sim, afinal, a possibilidade de existir um faroleiro controlando as máquinas que ostentam os refletores pouco transita nos pensamentos dos marinheiros. Não interessava a estes quem habitava; quem rondava as noites para manter o lúmen com vida. Interesses tinham em ver o brilho distante e leve, se perto, ofuscante. A construção tinha sua função, nada mais para refletir, imaginar quem a teria construído, quem decidiu, antes dele, habitar seu espaços vazios cuja única imagem que nutria seus olhos eram as quatro direções que a bússolas marcam: leste, oeste, note e sul. Não, a modernidade não permitiria. Seria esta dotada de maquinário capaz de automatiza o trabalho do faroleiro e, enfim, desalojá-lo da tarefa de um compromisso milenar. Mas foi a mesma que o condenou ao exílio. Modernas máquinas armaram suas funções para construção de uma nova Santa Luiza. Não culpava as maquinas. São ferramentas alheias as ambições dos Monteiro. Estes nem de longe registrariam curiosidades sobre a construção do farol. Quem o arquitetou, aliás, alguém cujo nome deveria estar registrado numa alguma placa de bronze em algum canto daquele lugar. Não estava, ou pelo menos, a questão ainda não constava nas ambições do homem que habitava o farol. No seu exílio não havia modernidade. 

                                                                                              IV

          Esquecimento; lembranças; duvidas. Parece que foi ontem sua partida. Parece que foi ontem sua chegada ao arquipélago, aquele lugar onde o tempo corria sem ser sentido. Em sua cabeça pulsavam questões, e duvidas construíam mais duvidas. Por que o nome Delfos. Contaram-lhe pouco acerca do lugar, histórias sem concatenações, mitos abobados, como o imaginário ingênuo que respaldava na lentidão dum progresso, de um conhecimento, mas haviam coisas naquela ilha morriam com passar do tempo, coisa que seriam percebida por nenhuma alma comum. Afinal, tudo parecia estar parado, isto ele não podia ignorar, lentidão, a mesma que acentua sua existência naquele lugar. O silêncio que corria solto, sorrateiro, vagueando entre um sono e outro, às vezes parecia não correr. As folhas do calendário foram arrancadas aos poucos colocadas em cima da mesa velha restaurada pela necessidade, formando uma pilha de passivas agonias, que tramitavam entre uma espera e um retorno. Esperando e esperando. Cansou de olha para aquelas datas. Esperava algo que talvez jamais viesse, ou talvez o jamais cedesse espaço para um sempre. Que este exílio foi voluntário, suas internas vontades sabiam. O arrependimento demonstrava perpetuar-se. Mas este só no final de cada tarde de todos os dias. Nunca havia experimentado o arrependimento noturno.    
          Estava acostumado com a espera e com a desistência. Desistiu de sentir pavores, pois já não mais mitos a serem criados; desistiu de tentar calar as lembranças, pois toda espera tem um fim. O lugar que estava era leve de injurias, destas que vez e outra provocam resmungos, então por que reclamaria da falta de rostos. Foi para o farol calado e lá se firmou como o único morador. Não optou por levar animais para estima, nem cão, nem pássaros - animais não existem para serem apegados ao homem, pois este esquecera que também é um animal e a solidão é mera criação de seus próprios deuses. Não queria mais apegos. Só ele deveria experimentar os infortúnios. Em seus pertences apenas o necessário para acomodar-se ao lugar – os cigarros para espantar os atritos com nervos afoitos, inquietos, mais importante depois da comida. As roupas, não aquelas da partida, nada para lembrar.
       Agora estava em nova casa. Para proteger. As ordens de Guilherme Monteiro foram claras: “encontrá-lo e matá-lo”. Depois disto não restou nem lar, nem a claridade das águas.   O Farol de Delfos ainda tinha vida, utilidade. Não seria o tempo o responsável pelo seu fim. Adaptou-se aos primeiros anos, mas após o quinto ano demonstrou quietudes, aceitação de sua existência e daquilo que o cercava. Para os delírios tinha como cura o sono profundo no final da tarde. Durante o dia o farol rendia apenas beleza. Mas esta nunca fora apreciada. - Certas beldades passam despercebidas, pois se perdem com envelhecimento dos amanheceres a inocência e o gosto pelo desconhecido.     
      A lua, cansada, escondia aos poucos seus raios atrás da linha do mar. A noite, assim como o dia, também morre durante a noite, ela impunha sua negritude como alguém que regi uma lei ostentadora. A luz dos refletores começava a fraquejar, piscava atordoada. Estava certo, as máquinas tinham defeito. Algo preso a rotina, problemas que não rendia grandes preocupações. O maquinário era antigo. Os motores do gerador careciam de óleo. O faroleiro franziu a testa embrenhando as pontas dos dedos por entre os cabelos, massageava debilmente. Inclinou sua coluna até ficar ereta espreguiçando-se longamente, como alguém que teria muito trabalho pela frente, em certo pelo resto da madrugada.
       Escutou o barulho do fraqueja das engrenagens. Gritavam secas; há muito tempo as lubrificava; há semanas não descia a colina do Almirante para buscar as provisões. Os Visitantes, que se encarregava de cumprir essa tarefa nunca viram o rosto do faroleiro, não aportava há dias. Deveriam ter descoberto que o óleo rendia. Poucos interesses deveriam ter; pouco rendimento de viva traria cumprimentar aquele dito “louco do Farol”. Não eram pagos para subir as ladeiras íngremes até chegar à encosta onde residia o farol.              
     Aquela madrugada formava um domingo, e eram nos domingos como aquela que as lembranças das vidas em Barra de Santa Luiza permeavam as vontades de esquecimento, esquecer os rostos. Como deve estar o lugar. Sua boca seca pedia uma doze de vinho, só havia vinho no cais, com as provisões deixadas pelos visitantes. “A bodega do seu Eduardo ainda existia?” Lembra desta toda vez que senti sede de vinho. Será que doze anos afastaram as imagens da contenda? Os arquivos da polícia caíram no esquecimento? Aquele dia nunca deveria ter existido. Sentia na fantasias do paladar cócegas do tempo que se sentava a mesa nas tranqüilas manhas de um domingo como aquele para mortificar-se em sabores, a comida de que Joana fazia, servida na mesa do quintal da Casa do Mangue. Malditas tardes de domingo, porque os prazeres existem, para serem amaldiçoados talvez. Para um castigo, talvez. Para serem lembrados. Estas golpeavam sua mansidão como punição pelo golpe de foice que deveriam ter deixado cicatrizes na confiança dos companheiros. Dizem os otimistas que más recordações se perdem no tempo, que são enterradas nas valas do recomeço. Mas uma recordação doente não tem substancia, um fantasma provocando pavores nas memórias. Sentia medos a cada tentativa de planejar um retorno ao vilarejo. A bússola quebrou, não dependia mais daquele amuleto para pedir auxílio aos astros. O relógio na parede não resistiria muito aos ventos carregados com a salina do oceano, se perguntava os motivos que o fazia observar os movimentos dos ponteiros, estava só, sem compromissos. Preservou aquele hábito desde o dia que aportou sua alma na ilha. Olhava-se, se perguntava sempre a si mesmo. O que esperava? Talvez um dia voltar. Caminhar na praia, ouvir o ranger da areia molhada. Iria voltar sim, um dia quando quisesse, quando a poeira da rejeição dissipasse. A amnésia dos outros seria o fruto de sua espera.                                                                             
     O homem do farol deveria percorreria alguns quilômetros a pé até o pequeno cais na outra extremidade da ilha, e assim o faria. Os barcos que prestavam ao serviço de abastecer o farol já haviam depositado as provisões; alimentos, óleo, cigarros, visita e partida. Tanto o gerador quanto a ansiedade do faroleiro pediam alívios. Era noite alta e evitaria a aproximação do amanhecer, o refletor não podia calar-se durante a noite. Dois galões seriam suficientes, mesmo que não tivesse era só o que podia carregar. Na ilha a ausência de transporte penava as mãos e pés. Os espirais de rochedos que brotavam do chão, contínuos e ferinos, compunham o relevo da ilha. Descer a ladeira íngreme com os rochedos pontiagudos naquele anoitece seria um pequeno martírio para não permitir que a luz se apague.   
     O cais, um batente de madeira que beirava uma infinita rua de água, perdido na vastidão da noite. Ele chega, ouvindo o mesmo som que ouvira no salão das máquinas.    As tabuas se contorciam produzindo um ronco, as estacas que sustentavam o piso eram espessas, uns dois palmos de raio, gasta na parte em que as ondas tocam, algumas tabuas estavam soltas e pobres. Deixaram as provisões jogadas em cima delas. A menor das pressões faria o piso ceder e as águas tragariam tudo. Deveriam saber disso. Largavam as caixas com as provisões a própria sorte. 
        A lua estava cheia, sua luz tocava os rochedos próximos. As formas que a noite criava, infinitos vultos de formas. Um solitário pela agudeza da circunstância, que tipo de criaturas aquele momento produziria a imaginação? O silencio, a escuridão iluminada, tudo a prosperar delírios de loucura. Seria melhor assim. Estava só numa ilha que ninguém desejava postar visitas. A carta não chegou. As notícias que aguardava, vindo de Joana e Carlos. Ao lembrar-se do amigo tocou o pequeno crucifixo preso a uma corrente envolta do seu pescoço. Massageando com os dedos e pedindo proteção naquela treva que o acolhia. Estranho. Nunca, desde o dia que aportou, tinha sentido nada como o que estava sentindo. A temperatura parecia normal, mas a cessação era de um frio insuportável. Sentia aproximar algo que não existia, sentia o gravidade da solidão corroendo seus órgãos. Ninguém, absolutamente ninguém, a ilha estava deserta. Solta no meio do nada.
       Escoavam sons vindos de longe. Sons que se perdiam com no desligar dos ventos. “Poderia ser invasores?” Imponível, pirataria moderna não existia, talvez.
        A única arma que tinha estava no farol. Uma calibre 32, a 11 anos em desuso. Levaria uns quarenta minutos para chegar. Era o suficiente? Poderiam os bandidos serem mais espertos do que imaginava. Tinha uma opção, investigar. O conhecimento que tinha da ilha seria útil. As pedras serviriam de esconderijo. Ponderação para situações de perigo; hesitação nas decisões.
       Os Jagunços dos Monteiros encontraram seu esconderijo. Não poderiam. Foi cauteloso, nenhum vestígio, nenhum passado. Os sons vinham dos Platores, onde estava erguido o Castelo de Corais. Os Barqueiros trazendo mantimentos. Tomaram outra rota para atracar, devem ter encontrado um temporal, mudaram o caminha para não serem pegos. O homem do farol iria investigar, não levaria sua arma, não havia munição. Iria caminhar ate o castelo. Já era hora de fazê-lo. Habitava o Arquipélago e não o conhecia. Caminhava para pensar, seria seu medo. Os mitos da ilha, suas sombras e mistérios. Não eram tão ruins quanto seu passado, quanto seu presente. As lembranças castigava-o como os demônios que pensava acompanhar sua presença. O dia que se traçou as linhas do destino. O dia que os Monteiros venceram. Agora pensativo, caminhava através do platô remoendo o passado e perdido em seus pensamentos:                             
                                                                                               V

       - Ainda não entendo os motivos que me prendem nessas ilhas. Posso muito bem retornas despreocupado para Santa Luiza, procurar por Joana e Carlo Vitalino. Os dois não iriam negar um aconchego em suas casas. Quando sai de lá, deixei tudo em panos limpos, tudo explicado, com todas as palavras. Não foi culpa minha, eles sabem. Avia homem, acorda! Não iram negar nada, sei disso. Como deveria estar o lugar? Muita gente deve ter mudado de aparência, outra cara, tudo mais velho, também, se não mudasse. Faz tanto tempo né. A bodega do Eduardo. Deve ta tudo derrubado. Se a polícia não fez o serviço, os capangas dos Monteiros fez direitinho, sem deixa rastro... maldito lugar dos infernos. Aquele filho duma égua, porco nojento. Deve ta rindo ate hoje. Nem passa pela cabeça dele que to vivo. Se cofia demais nos capangas.  To aqui nessa bosta de lugar por causa dele, podre ate nas ventas. Vejo coisas o tempo todo, coisas que não existem, do outro mundo. Não sei o que são, não sei o que querem de mim, querem me levar por outro lado, pra onde os vivos não podem ir. Pra sempre, melhor assim se não posso viver nem em Santa Luiza e nem aqui em paz que me levem de vez. Quantos anos fazem que to aqui, nem me lembro. Eles muito mesmo, o coração batendo e as alma esquecida. É melhor que não saibam mesmo, só to vivo por causa disso. Não gosto e me esconder feito um rato. Nunca fui disso também. Mas também nunca fui de matar ninguém. Me botaram numa cruzeta. Maldita noite que fui beber, deveria ter fica em casa mesmo, com Joana. Tava de cabeça quente, muito quente... Esse cigarro não ta bom. Ta amargando. Ou sou eu que num agüento mais essa marca. Vou ter que da mais dinheiro praquele filho-da-puta trazer de outro. Ainda bem que ele não me reconheceu, ainda. E se reconhecesse!? O que iria ter? Posso dize que eu não sou quem ele estar pensando. Tenho que ter cuidado. Disfarçar um pouco, cautela. To meio descuidado ultimamente. Queria que essa porcaria toda saísse da minha cabeça, que ta acontecendo comigo??? To ficando meio louco, só tem morte no que vejo. Por que quando olho pro mar não vejo mais sossego? To enjoado de viver aqui, quero voltar. Deve ser isso, passei muito tempo aqui. Moendo porcarias do passado, sempre, sem descanso. Não faço outro coisa. Já ta na hora de voltar. Isso mesmo, voltar. Sair daqui. Tirar essa maldição que guardo. Vingança talvez não resolva nada. E as queixas? Talvez não tenham prestado queixa. Não interessava aos Monteiros minha prisão. Se eu fosse preso, poderia haver uma revolta na vila. E isso não tava nos planos deles. Tudo deveria correr como mandava os planos deles. Sem poeira e sem zuada, apenas o sangue que caiu em minhas mãos. O sangue de Otavio, o infeliz. Tava na hora errada, no lugar errado. Era egoísta demais pra perceber a situação que tava metido. Foi usado direitinho, um mamulengo dos Monteiros. E Seu Eduardo. Esse sim se deu mal. Deve ta com o Satanás agora, sendo açoitado com um chicote de arame farpado. Foi. Foi tudo combinado, tenho certeza que foi. Aquela Puta que tava com eles não era namorada de ninguém, muito menos do Octávio. Eu podia ta bêbado, mas sabia das coisas, meu juízo tava no prumo, ainda. E mesmo eu bêbado não sou de ta mexendo com mulher dos outros. Aquela mulher não tinha culpa de nada. Molharam a mão dela pra fingir que era mulher daquele demente e começar a confusão. Se o safado tivesse juízo teria corrido dali pra sempre. Me deixado em paz. Talvez deles não fosse atentar minha vida, só me assustar um pouco. Como fizeram com alguns. Poderia ter engolido aquele desaforo e tudo estaria bem. As vezes parece fácil falar. Se eu tivesse fugido, teriam me chamado de covarde. E do jeito que eu tava isso nunca iria acontecer. Aquele dia foi o inferno, jamais iria arredar o pé de onde tava. Com o Amaral passando na minha cara que a Cooperativa tinha que fechar, que não tava rendendo nada, que eu não tinha nada pra fazer por lá, que eu chispasse da vida do lugar. Nunca tinha sido tratado daquela forma, por ninguém, como um animal que não serve mais pra coisa alguma. Realmente, não mais nada pra fazer por lá. Tudo que falava fazia sentido a quem freqüentasse a Cooperativa. Eles eram novos na cidade. Tinham muito dinheiro, muito poder. Liderar o pessoal só com a cara não era o suficiente. Me colocaram como líder da Cooperativa, maldita hora que Carlos colocou aqueles livros e aquelas idéias na cabeça, tem que ser louco ou trouxa pra se envolver com essa coisa recuperação de tradição, recuperar o que? Ninguém naquela vila queria continuar vivendo de fabricar colar de concha, ganhar sustento com o que podiam catar pelo chão não é dignidade quando se tem debaixo do nariz um emprego numa fábrica. Com carteira assinada e todo o direito que a lei garante. Desperdicei meu tempo, o tempo de toda minha vida. Aquele lugar tava precisando crescer mesmo, coisa melhor. Vaidade não é pecado, se assim fosse aqueles sacerdotes das igrejas já tinha sido expulsos pelos fieis, açoitados até sangrarem, afinal de contas por estes não me ajudaram, ficaram calados vendo o plano dos Monteiros ser feito sem pescarem os olhos, já deviam saber de tudo, até os serviçais de deus sabiam, o futuro que os monteiros prometiam era de bom agrado. Era do agrado de todo mundo na Vila. Eu também via com bons olhos, as tarrafas dava sustento mais não dava conforto, aquilo que a gente da Vila queria, pra falar a verdade, eu também queria. A Cooperativa era só o que agente tinha, e isso eles não queriam, muito menos os moradores. E sem mais sem menos, eu tava ali no chão, com as mãos nuas, estrangulando aquele infeliz e me condenando a viver se escondendo ate de mim mesmo. O plano deu certo, o infeliz nem imaginava que era peça de confronto de domínios. O plano deu certo como eles queriam que fosse. Agora esses demônios me acompanham, para onde quer que eu vá, para onde quer que eu olhe. Talvez sejam meus amigos, talvez meus inimigos, não sei ao certo, mas me acompanham, devo respeitá-los, fui eu quem os convoquei. O vento parece mais calmo esta noite, dizem que a Dama dos Corais aparece quando o vento ta assim, calmo. Só ouvia isso da boca dos outros. Não deve ser nada. Só essa minha cabeça.                     
                                                                                                                    
                                                                                                VI
 
         Existem refúgios para cada tipo de solidão: um firmado em distantes cantos geográficos, outros nos fantásticos mitos que são criados, sejam nebulosos lugares inalcançáveis, próximos somente quando são invocados para um descanso momentânea, longe da realidade, ou, seres imaginários já existentes, aguardando, de alguma forma, uma invocação. A Dama dos Corais existiria realmente? Ou seria sua forma um chamamento dos delírios da cognição de um pescador que já fazia seu verdadeiro trabalho, aquele que lhe deda o prazer de ver o oceano e a solicitude dos astros sem cais nos trovejares do arrependimento. Ele foi educado com cruel-nobre arte do raciocinar. A quem serve esses pensares? Os que, como ele se consumiam em desordem de uma existência, talvez, uma existência que ninguém queria. E esta o levaria ao seu próprio infinito, distante daquele que esperava e próximo do que desconhecia. O Castelo de Corais, por mais real que fosse, de algum modo ganhara por si só, novas perspectivas, mais vivas e sombrias.
     O homem do farol escutava ruídos vindos das frestas da pequena construção. Assobios do vento, ondas noturnas batendo nos rochedos próximos, gaivotas brigando por uma ultima refeição. Todos aqueles sons seriam meros compassos da natureza se nas circunstâncias não estivesse, sublinhada com pavores divinos. Uma possível parcialidade a lógica seria um escape para prevenir de qualquer descuido quanto a um possível emboscada. Deveria esquecer a Dana dos Corais, deveria esquecer os ruídos do passado. A atmosfera mítica retarda o solução das coisas. Quanto mais permanecia ali, parvo por um lenda, menos tempo teria para arquitetarão de uma estratégia para receber os jagunços do dos Monteiros, os Jagunços do Mar.                         
        Por algum tempo esquivava suas crendices pelo mito, ou pelo menos tentanva. Noite de lua nova, desta vez estava enorme, cintilando deveres de alguém que não existia. Como seriam suas formas – alguns, lá em Barra de Santa Luiza diziam que a Dama dos Corais era alta, de feição sustentada por um sublime hipnótico, aos que se atreveram desafiar as lendas e direcionar atenções para seus chamados era destinado ao “vazio ou a loucura”. Preferia a loucura como castigo, o vazio possuía adjacentes as etapas de dor: angustia, fúria, amargura, aflição e outro sinônimos do infortúnio que não pretendia buscar.
       É claro e preciso como as equações que regem o universo, que sua estadia na ilha seria acompanhada por entrave e enigmas agonizantes, elementos cedidos pela solidão. O vento produzia sons de suspiros. A natureza mostrava sua segunda vida. Materializando metáforas, corrompendo a razão do faroleiro. Não queria ser tomado pela loucura. Estava só em meio à vastidão de um deserto de água. Pior que isso em meio a vastidão das duvidas que parecem eternizadas na mente. Corroendo, martelando, sugando o que lhe resta de esperanças. A Dama dos Corais existia realmente? Se a lenda for verdadeira ele estaria próximo de conhecer suas formas. Estava afundado em delírios. Sentiu calafrios durante o decorrer do dia. Sua garganta coçara durante toda à tarde dia anterior, sentia o corpo esmorecendo aos pouco. Resmungou de inicia de infecção. A febre costuma trazer alucinações de coisas fantásticas. Estava só na beira da praia investigando algo que poderia existir em apenas seus delírios de homem doente. “Doente”, sim estava doente a muito tempo. Uma cólera trazida de longe. Mágoas transmutadas em medo. A vertigem da raiva mudando ate se transformar em trevas desconhecidas. Sentiu sensações deste tipo num passado não muito distante. Esquecia que todas às vezes esses pavores passavam. “Era apenas um mito, a dia vai despertar e logo os medos se dissiparão pelo esquecimento”. Repetidas vezes refletindo para si mesmo e olhando o vazio da noite. Mais uma vez se perguntando sobre a loucura. Sua sina solitária. Que loucura maior poderia existir do que estender sua vida naquele lugar? Longe de tudo e de todos. Lembranças do passado perseguindo-o novamente. A traição dos Monteiros. Sempre uma traição. Sempre um tormento.     
      Estava familiarizado com o oceano, era pescador, e dos bons. Intimidade intensa com o ofício, O Tecelão de Tarrafas, assim o chamavam, renderam-lhe prestígio em Barra de Santa Luiza. Respeito vindo da dedicação, das obrigações. Sempre ajudando, sempre tecendo redes. Doação de serviços para os que pronunciavam seu nome. Religioso e devotos dos Santos que protegiam os marinheiros. Respeito. Para uns um salvador pelo acreditar em dignidade, para outro um problema.
      Não tardou muito para a traição ganhar vida. Cóleras e invejas, palavra que não conhecia agora causadoras do inevitável que ele nunca esperava e nem teve reação. A brusquidão da traição, monstruosa, norteadora, inesperada. Religião e princípios entrariam em desordem. Descrenças e desequilíbrio. Resultantes das traições modernas, a mesquinhez fomentava a cada dia, a cada promessa dos monteiros.  Eles que o fizeram recolher seus planos para um futuro que se transmutava em presente de loucuras, solidez de incertezas, ódio constante que o prosseguia na forma de um mito há muito tempo esquecido e que agora, naquele estante de devaneios embriagantes, que atormentava seu sossego constante na ilha de Delfos. Seu futuro e passado agora tinha dono. A Dama dos Corais estava a sua procura. Ao mesmo tempo em que a lógica que regia seu consciente disputava a razão com o mito da Dama, suje a idéio de que os Monteiros teriam enviado seus capangas numa ultima busca, queima de arquivo, o guardião do farol.
        Uma explicação encontrada para os ruídos que aquela noite produzia. Tudo tem uma explicação. A paranóia transformada em loucura. A Dama dos Corais como fruto dos distúrbios provocado pela continua exposição ao universo da solidão. Demência de raciocínio que corroem a prudência da mente. Não seria difícil encontrar informações que levem a sua localização.                                             
      Ouvia histórias sobre ela quando pequena. As lembranças retomadas pelas circunstancia provocadas por delírios esmaltados de fabulistas mensagens da infância. Não vivia mais no mundo do faz-de-conta. Cepticismo de adulto para controlar os instantes imaginários que em hora como aquele costumam perturbar o raciocínio lógico das situações. Não existe maturidade sem perturbações quando se estava só nos confins do esquecimento.
      Chamavam-lhe de O louco do farol. Poderia haver um grama de verdade nisso. Nunca negou seu estado de loucura voluntária. Demonstrou frenesi animalesco quando agrediu na noite em que experimentou o alimento da vingança. Saciou sua sede com sangue de Octavio Marques. Os demônios voltaram para usá-lo novamente. Tornou-se seu servo mais dedicado em assuntos mundanos. Deveriam ter vinda a lúdica cena em se divertiriam à custa do Tecelão de Tarrafas. As criaturas dos confins das trevas purgariam com divertimento mundano a alma perturbada do futuro faroleiro. Do destino não há como escapar. É inevitável. A hora do acerto de contas chegou. Estava lançada a sorte ao desbravador da noite. Como poderia escapar de seres que não tinham substancia.
       De súbito algo vagueia seus pensamentos. Poderia não ser demônios a procurar pavores nos servos. A Dama dos Corais, talvez fosse ela a enviar os demônios, os jagunços do Mar. Por que a protetora do farol viria atormentar seus pensamentos. Estava na ilha para guiar os marinheiros através da escuridão. E os guiou, pelo menos os poucos que por ali passaram. O arquipélago de Delfos era cógnito apenas para os pescadores. Aqueles com embarcações de médio porte tinham o privilegie de aportarem em suas margens. Apesar de ser possuidor de dito transporte, raras foram as vezes que Guilherme monteiro experimentou caminhar em suas areias. Não via função em conhecer o lugar, não era pescador, não barqueiro. Jamais seria; jamais sujaria suas mãos com trabalho duro daquele que navegam. 
       Ao homem do farol agradava-lhe a vista imensurável da geografia do arquipélago. Os Platores áridos, de pouca vegetação. Em suas areias caminhava a Dama dos Corais. Vagando, a procurar almas. A maior parte das ilhas que compunha o Arquipélagos eram minúsculas, inabitáveis ate mesmo para animais; areia negras durante o dia, e a noite claras como uma brancura morta. Nenhum atrativo. -Algumas circunstâncias, respaldadas em artífices inexplicáveis, levam um individuo a nutrir por muito tempo um convívio com o indesejado, se assim não o fosse inexistiria as conflituosas manobras do pensamento que cominam no conhecimento individual. O faroleiro, enquanto Tecelão de Tarrafas e pescados, estava longe de imaginar que conheceria a si mesmo, em tão penosa situação.
       Os Platores áridos da ilha eram úmidos à noite. Sinuosas dunas de terras claras, altas e baixas. Escondiam o Castelo de Corais, lugar desabitado, dizem os barqueiros ser aquela construção um reduto traiçoeiro, de malditos mistérios. Só mitos alguns sórdidos, outros intrigantes, hipnóticos. Mas se o Castelo de Corais é um lugar impregnado de mito, então estes não seriam problema, mitos só servem para explicar o que não pode ser explicado, o que não pode ser visto, o que não ser tocado. Suas paredes se formavam à medida que ele se aproximava. Era pequena, esverdeado pelas algas que ao logo das marés fixaram-se em seus blocos de pedra. Apenas uma ruína de um passado esquecido. Agora revivido através de sua vista curiosa, descobridora. A visão do Castelo era algo novo, espanto. Formas novas para preencher as poucas que tinha na ilha. Não havia portas para recebê-lo, era um visitante invasor, não pediria uma licença para sua entrada. Não havia teto e o piso feito de madeira podre rangia na perdição da noite. O som percorre sua como um aviso de afastamento. Tarde para pensar. Tarde para voltar. A madeira podre rompeu-se. Em baixo uma escada amortece sua queda. Faroleiro tinha a sorte. Apenas.                                                         
                                                                  
 VII

         O tombo não fora suficiente para desacordá-lo. Estava caído próximo ao pé da escada, sentia fortes dores nas costas. Olhou para cima e viu que os degraus estavam todos danificados, madeira úmida e podre. O tempo havia preparado uma maldição para os intrusos. O faroleiro caiu, e assim sendo, o raciocínio levou-o a crer que o último visitante dispôs de uma presença em anos esquecidos. Suas dores passaram com um irônico recorte de memória. Algumas cenas de histórias que lera na pequena biblioteca de Carlos Vitalino estavam remontadas naquele instante. Ria enquanto se erguia. Apoiando-se numas pedras que estavam ao lado, seu corpo ficando ladeirento, curvado e tonto – não havia gravidades físicas. Presenciava um lugar que há décadas não era contemplado por nenhuma alma viva. Um pequeno quarto vinculado ao subterrâneo do Castelo de Corais. Parte das paredes havia caiações de tijolos feitos de barro vermelho, a outra parte, estendida por três lados, era feita de pedras diversas; algumas retiradas dos próprios bancos de corais, as demais, pequenos lajedos, devidamente fragmentados e amontoados um a um, com uma perfeita conexão. O lugar tinha um odor pútrido.  O cheiro da maresia misturava-se com fezes ressecadas de gaivotas espalhadas pelo chão, estavam por toda parte, encima dos moveis, impregnadas nas paredes. Carcaças decompostas de aves espalhadas pelos cantos.
        Sua cabeça nauseava tonta. As dores secavam, incomodando apenas quando se movia bruscamente. Algumas pedras que compunham a parede eram salientes e a parede próxima do que restou da escada não era tão íngreme, tentaria uma escalada - dizem que a liberdade, nos seus mais variados aspectos, é a maior necessidade do homem. Naquele instante uma nova premissa contrapunha com esta conclusão, a da curiosidade.
        Não iria sair daquele lugar ate vasculhar as razões tolas que o lavara a estar ali. Em Santa Luiza ouvia rumores sobre o Castelo de Corais e seus construtores. Alguns diziam ser obra dos descobridores de épocas colônias, não firmando ali pelo poucos recursos que as ilhas do arquipélago possuíam, sem fertilidade de solo ou qualquer outro extrativo alimentar. Outros diziam ser aquele lugar refugio de contrabandistas. Se fosse deveria haver vestígios de qualquer valor. Santificadas relíquias históricas. Outra vez lembranças dos livros de Vitalino, “Os conquistadores”, ser houver um eldorado escondido, estaria ele frente a frente com um fantástico degustado por poucos, a descoberta: cálices, ânforas, porcelana de todo tipo. E se fossem contrabandistas modernos a utilizarem aquele lugar. A construção poderia estar sendo usada como depósito de mercadoria roubada. A movimentação que o conduziu ate o castelo, os ruídos estranhos que ouvia; o ranger das tabuas do pequeno cais da ilha, causado pela frouxidão das tabuas. Um dos barcos havia desaparecido. Tudo levava a crer que aquele castelo não era tão inabitável como acreditava ser. Refletia para si a possibilidade de serem os barqueiros os responsáveis pela desordem de lucidez que vigorava naquele instante. Essa possibilidade era afastada. Eles odiavam aquele lugar mais do que Guilherme Monteiro. Os barqueiros resmungavam discórdias pelo transreceptor antes mesmo de atracarem para deixar os suplementos. Nem desciam do barco para abastecer com óleo, toda a função de carga ou descarga era realizadas com arremessos das caixas, simplesmente.

                                                                                      VIII
  
         Poderia não existir contrabandistas na ilha. Poderia mais uma vez sua mente estar sendo atormentada pelos vultos do passado. As cenas que via eram dum lugar desolado, o odor pútrido aumentava à medida que fuçava nos moveis podres a sua volta. Havia uma estante com prateleiras vazias, uma cama com colchão de molas, mesa com cadeiras e no chão uma caixa de madeira na forma cúbica que despertava mais a atenção do que os outros móveis, nenhum vestígio das relíquias que imaginou. Não havia sinal de instalação elétrica ou sistema de água e esgoto. Aquele local estava abandonado, de alguma maneia parecia que foi deixado para trás por quem quer estivesse habitando suas dependências. Os móveis eram antigos e apodrecidos, sem duvida.
       Havia varias cadeiras para uma mesa de grande. A cama era extensa, caberiam três ou quatro pessoas. Um fogareiro que estava próximo a estante deveria servir para preparo de comida e aquecimento. Um feixe de velas envolvidas por um barbante, bastante groso, funcionaria com iluminação. Tirou o isqueiro que estava dentro da algibeira de ferramentas e acendeu duas. Colocou a caixa de madeira em cima da mesa, estava devidamente trancada, mas não com fechaduras. O sulfato de cobre que envolvia as partes laterais saldava a tampa. Retiro da algibeira formão e martelo. Golpeou entre as frestas ate sentir um estalo. O lacre temporal fora rompido. La dentro um fardo velho, com cheiro fortíssimo de morto. Quando o faroleiro tentou retira-lo percebera que o tecido estava grudado nas laterais da caixa. A boca do fardo colocada porá baixo mostrava que houve um cuidado em aconchegá-lo. Ao afagar a superfície do pano percebe que seu conteúdo é maleável, movimentavam-se como papeis. Trechos do fardo esfarelando-se. Aos poucos a boca foi desprendida das bordas da caixa. Realmente, eram papeis. Não havia utensílios de valor, só paginas de caderno soltas, alguns envelopes sem escrituras referencias, nem remetentes ou destinatários. Dezenas, talvez centenas. Todas em completo estado de conservação. Esperava uma carta por anos, e agora, em seus domínios, encontrara centenas.    
         Destinatários variados, todas vindas de Santa Luiza. Sentou num banco de pedras e pusera a ler à primeira. Leu alguns parágrafos rapidamente, depois a colocou no envelope a que pertencia, fechou o fardo. Roçando a barba com os dedos: os jagunços do mar não mais existiam, a Dama dos Corais sem sussurrar suspeita de qualquer presença e os Demônios acalmados como a noite que o cercava.  O som das ondas arrebentando-se nas pedras, ele calmo, olhado o fardo como uma relíquia encontrada, algo que buscava. Aquelas cartas o esperavam. Não se afeiçoou na idéia de olhar nomes, mas perguntava-se quem poderiam ser as centenas de remetentes e destinatários escritos no envelopes. Pessoas conhecidas, próximas de suas recordações, talvez. 
      Sentou no colchão de molas empobrecido. Pensativo, cruzou os braços. Movia a cabeça de um lado para o outro. Alguém registrara um passado através daquelas cartas. Poderia haver imagens, alguns cartões postais. Havia odores, não aquele cheiro tonto de morte sentia quando chegou. Os Demônios estavam calmos, após doze anos eles não atormentavam. Nenhuma forma dos Monteiros na memória, nenhuma fúria, tudo calmo. Deram-lhe um descanso, por alguns minutos, mas deram.
        O esmorecimento provocado pela febre cessou, ou continuava e ele tonteado pela empolgação esquecera-se das dores que estava sentindo. Retornaria para o farol com aquele fardo. Agora tinha um passado par recordar, um passado que se perdeu por uma ânsia de desconhecido recebeu. Os moveis estavam inteiriços, o lugar abandonado as pressas. Devia ser o hóspede um fugitivo, assim como ele. Estava escondido naquele opaco castelo em ruínas, foi por isso que sua presença não era notada. Nenhum vestígio de movimentos, ou luz, ou som. Escondia-se como um espião, como um especialista na arte de se esconder. Cometeu erros mais fúnebres, mais sórdidos. Fora condenado a viver naquele refúgio, condenação maior que o isolamento não existe. A condenação do hóspede superava a dele. Embrenhado naquele lugar, o faroleiro residia entre as paredes do farol, protegido dos ventos, do frio, do calor, recebendo mantimentos periodicamente, regalias da eletricidade, avistava as quatro direções que os holofotes apontavam, tinha os barqueiros que lhe rendiam indiferenças, mas nunca cessaram de manter o arquipélago abastecido. Com as cartas já não estava mais em uma condenação. Estava em Santa Luisa. Estava em casa. Estava com os próximos. Voltava para o Farol com o imaginário distante dos mitos. O Castelo de Corais distanciando dos seus olhos. A noite mais clara agora. As constelações com um brilho incomum. Os espectros que o vento trazia, agora só eram meros espectadores de suas descobertas. Tinha outro canto para visitas, para redescobrir, o Castelo ganhara não um novo hospede, mas um visitante, rotineiro.
       O homem que habitava o farol olhando os envelopes, pensativo como o costume ordena. Afagando a superfície do papel. Lendo-as, descobre uma datação distante da que esperava.  Em 1936 suas formas ainda não existiam, seus pais ainda não conheciam e Santa Luiza não era vila, apenas um escapado com poucas arvores. - Algumas descobertas abalam as esperas, algumas descobertas rompem os limiares dos descobridores  
       Ele não irá retornar. Já tinha a Santa Luiza que procurava, dentro daquele fardo de pano, sufocado pelo tempo que custava a corre, guardado no Castelo de Corais, esperando.    
       O hospede do castelo, fugitivo como ele, teve o cuidado se tornar anônimo para si. Não havia destinatários nas cartas, apenas histórias de um cotidiano. A idéia de usurpar o passado do hospede não vinha do uma mentira, vinha da necessidade de estar em casa, seu lar não mais existia. Pelas descrições, uma cidade em nascimento, tudo novo para o floreiro. Reconstruído com memórias aquilo que outros destruíram. A cada folha lida, novas casa, novas construções, novos rostos, novas cores e formas, lembranças completas e menos completas. Tudo se formando, se transformando, moldando-se como um pedaço de barro nas mãos de um artesão.             
     Via que o dia clareava de pouco em pouco. O sol não aparecia, mas sua luzencia era nova, diferente como um novo nascimento. Delfos não era mais uma prisão, agora tinha passado e presente. Não mais os Monteiros, nem o Galpão dos Pescados o incomodaria. Não mais estaria só. Haveriam histórias a serem lidas, histórias a serem contadas. Os tormentos se acalmaram. A solidão do faroleiro seria um relato para oceano ouvir, simplesmente.      

Nenhum comentário:

Postar um comentário