sexta-feira, 22 de junho de 2012

Esmeralda Carne


I Capítulo  

       “Via-se acuada por homens de chapéus negros, de rostos sombreados, e por mais que ela tentasse ver as feições de alguns, não podia. Só via a sinuosidade robusta e de magreza morta de corpos nebulosos, que exalavam um odor fétido de pelo medo, sim estava com medo. Eram muitos, congregados como uma procissão de almas penadas. Andavam em sua direção com maior rapidez, e quanto mais corria, mais as pernas desobedeciam. Os dedas alongando-se, tentando agarrá-la, entrelaçando-se até se transformar numa única e gigantesca mão de sombras. Ela se afasta querendo correr, fugir daqueles homens cujo vazio devei formar suas carnes. Mas não consegue. Suas pernas só andavam, por mais que ela tentasse correr. O caminho sob ela era duplo, como rastros de carroças. Os homens se aproximam, com os rostos ainda em tom de bruna escura. Ela não mais iria fugir. A porteira a sua frente estava trancada. Não havia som, não havia vento. E os gritos de seu desespero eram opacos, inaudíveis ate mesmo para ela. Sente um forte sopapo no ombro. Seu pescoço sendo alçado pelas mãos que a perseguiam, os membros imobilizados e esticados. Foi erguida. Levitava por braços que, supostamente a levariam para o infinito do mato, e usurpariam suas virtudes de mulher. Seu corpo de fêmea carnosa brilhava a luz da lua, aquilo amolgava as sanidades daqueles homens. Já não eram mais homens de compaixão, ou honra. Eram instintos, apenas, virilidade aturdida por uma maldição da alma...                                               
       
      Santo Amaro dos Montes despertou naquela terça de maio com uma trovoada infrequente entre muitas trovoadas. Os estrondos celestes sacudiam a quietude dos habitantes. Ecoavam sons de ventos doidos, medonhos, afoitos e confusos como estouro de bois, e este traziam um cheiro suave de chuva que haveria de cair, mas as gotas não caiam. O ríspido clima acolhia o que todos na vila podiam chamar de Sinais de Deus; os Anjos repousariam naquele lugar inóspito, naquele lugar onde as próprias páginas da existência se encarregariam de esquecer. Os Anjos que ali passavam, invisíveis, indiferentes com a solidão das casas, não tinham intenção de intervir nas Danações que acolheriam os dias que viriam, eram meros expectadores confusos, e Santo Amaro dos Montes sucumbiria pelo próprio medo de não sucumbir, até restar ruínas e barro rubro.         
       Os estrondos continuavam, rasgando o sossego da manhã. Havia um pavor comportado por causa do mal tempo de vinha, todos saiam de suas casas para ver os clarões, alguns acolhidos nas janelas, apenas espiando as agitações do tempo. O vento soprava forte e confuso, zumbia opaco, como os gritos de um prelúdio disforme. A poeira suspensa embaçava a paisagem seca do lugar, a Vila aos poucos sendo devorada pela escuridão das nuvens cinzentas que a cercavam aos poucos a paisagem. Uma manha semelhante à noite, vultosa e sonolenta.   
      No quintal da casa de número 16, de uma rua cujo só aparecia apenas o segundo nome, “Afonço”, o primeiro nome apagado pele ferrugem dos anos. Tereza Holanda retirava rapidamente as roupas do varal, caprichosa, meio inquieta com o que sucedia, colocava ate mesmo as que ainda estavam úmidas. Gritava por Helena, que consumia-se em pressa ao espalhar recipientes pelo quintal e aprumá-los embaixo das bicas do telhado, ou qualquer canto que pudesse colher as gotas. Francisco Holanda ainda não voltou do Campo das Palmas. Tereza reclama a lentidão de sua enteada:
     - Tá vindo uma chuva forte, caminha que hoje não tem perdão.
     - A gente nem sabe se vai ter chuva, aqui nunca chove, o céu só tem pantim. Fica tudo escuro, o vento derrubando tudo. Chuva que é bom, nada!
     - Caminha menina, tu num sabe de nada. Se chover, a gente junta água, se não chover, tu não vai morrer pelo trabalho perdido, isso eu garanto...caminha menina que São Pedro vai manda chuva!
      Nem a primeira, nem a segunda. As gotas teimavam em não caiam. As roupas protegidas, as bacias postas estrategicamente. Pacientemente as duas olhavam o céu. O vento continuava soprando, os estrondos soavam mais fortes, furiosos e contínuos, parecia raivosos e enlouquecidos. Tereza afaga a sobrancelhas, pensativa. Não entendia o tempo, não entendia o obvio que tardava a acontecer. Helena estava certa, a chuva não cairia. Ou pelo menos demorariam a cair. Talvez tivesse despejado um pouco em Uauá, ou em Cocorobó, quem sabe mais tarde quando sujeito dos correios lá de Jaguararí retornar traga novidades sobre aquele clima assombroso. A natureza dos Sertões teria novidades a brotar de suas areias.       
     A porta da frente batia, pensavam ser Francisco. Apenas a ventania que brincavam com as preocupações das mulheres. A chuva não caia, e o céu cada vez mais escuro. Se cair será uma enxurrada. O Açode das Pedras ficaria cheio novamente. O capim cresceria, e as palmas, estas, mais vivas e robustas. Se fosse plantada em tempo, aproveitando bem o terreno, encheriam duas carrocerias. O ganho pela fartura por certo seria investido na bodega que almejavam montar. Os anos passam, os Holandas não iriam ficar perdidos no extrativismo. Queriam um futuro mais rentável. Os campos de palma assim os serviram, por gerações, herdados e os beneficiando com uma renda que permitia Pão e Vestis. Mas estava em hora de planejar a modernidade.          
      O sono da ansiedade apagava aos pouco os temores da trovoada. A escuridão das nuvens era clareada pelos planos do plantio de palmas. Calcularam que Francisco saberia usar estratégias para usufruir das chuvas que cairiam. O dinheiro esperado. O comercio da bodega realizado.
      Fechavam as portas do quintal. Mais escuro que o dia estava o interior da casa. Obedeceram o costume: só uma lâmpada acesa. A luz forte iluminava a cozinha onde ambas sentavam pensativas. Recolhidas. Se escondendo da chuva que ainda não martelava o telhado. Caladas, escutando o borbulhar do café se aproximar. Ainda o gás que chiava em meio ao silêncio daquela manha escura. Um inverno que chega sem avisar, como um mensageiro de maus precários. Aquele dia seria lembrado.
     Tereza preocupada com Francisco. O homem que saiu para os Campos de Palma, não para colhe-las, mas para afagar a terra, arando-a dedicadamente. Ela imaginando seu o momento do seu retorno, não existia mais os afetos do tempo em que se conheceram. Uma casualidade rotineira que se tornou o casamento não tornou menos preocupante sua ausência. O frio pensamento de uma fatalidade: uma cheia poderia ser a mudança de tudo, para melhor, ou para o terror da morte.
       Helena, agora, insegura sobre suas intuições:
      - Se for uma cheia Madrinha!? O que vai ser do Padrinho Chico.
      - Deixa de besteira menina. O Chico ta lá no Terreno. Ele sabe se cuidar.
    - E o riacho lá do Terreno? E se a água descer com força? Ta lembrada de Seu Amado? Era uma chuvinha. Até hoje nem sinal.
      - E tu acha que Chico doido é. Tu acha que ele vai ser besta de arriscar vim pelo riacho nesse dilúvio. Vira essa boca pra lá menina. Tu só diz besteira. E eu aqui desesperada. Tu já viu tempo desse na tua vida.
      - Por que a Madrinha não chama Aluisio pra procurar Padrinho Chico no terreno.
     - Aluisio também ta no terreno – os estrondos pausam por alguns segundos a conversa – ta bem, vou procurar Aluisio.
      Tereza, hesitante, abre a porta e observa a movimentação da rua, poucas pessoas. Causadas quase várias. A Sinuca de Abrão, que normalmente concorre com as igrejas da Vila em numero de freqüentadores, estava fechada. Aluisio era o visinho, a porta de sua casa estava trancada. Ela bate com socos leves. Uma brisa com poeira a cega. Esfrega seus olhos com o pano do avental. O visinho não respondia, não estava em casa.
       Inquieta. Resolve não procurar mais Aluisio. As ponderações de sua tranquilidade, agora abaladas pelo súbito temor do tempo. Acolheu-se na sua casa. Pensativa, olha para Helena que permanece sentada no mesmo lugar. As duas amargando as sombrias horas que vigoravam naquele amanhecer.                                                  
        
                       
                                              


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