sábado, 3 de março de 2012

                                 Humanamente inconsciente (crônica)

“Primeiramente, pois tudo precisa ter um princípio, mesmo tendo esse princípio aquele ponto de fim que dele se não pode separar, e dizer ‘não pode’ não é dizer ‘não quer’ ou ‘não deve’ é o extreme não poder, porque se tal separação se pudesse, é sabido que todo o universo desabaria, porquanto o universo é uma construção frágil que não agüentaria soluções de continuidade”
(J. Saramago)        
      Nas minhas curiosas e intuitivas leituras sobre psicanálise, o que de fato foi indispensável para entender 0,1% da racionalidade humana, respaldando este resultado numérico em minhas deficiências matemáticas, descobri uma curiosa artimanha da mente: os "insightis", que é, justamente a capacidade da mente de compreender de maneira consciente situações que vivemos ou testemunhamos. Levando em consideração a complexidade e limitações deste cronista amador, por assim dizer, tentarei compactar em forma de uma veracidade testemunhada consoante a esta colocaremos o pensamento de meu antigo professor de “dramaturgia brasileira”, em que, numa determinada aula ele colocou em xeque uma questão: por que, dentro de nossa natureza, sentimos atração por cenas sórdidas, hediondo e comportamento brutais, e ao sadismo gratuito!? A resposta, como era de se esperar, foi um reticente silêncio. Pois já estávamos a cair nas artimanhas dos “insightis”.            
        Acordei com fortes dores no abdômen e pelo fato dos analgésicos que havia ingeridos não terem surtido um efeito atenuante que deveras constavam nas explicações da bula, de imediato, como toda aflição decorrente de danos a própria saúde minha segunda opção foi caminhar através da madrugada, em meio a fortes dores e um silêncio nas ruas, para um atendimento hospitalar emergencial mais próximo, contando, é claro, o nosso Sistema de Saúde Pública. Na emergência fui logo atendido. Após rápidos exames e assinar alguns receituários, o médico de plantão recomendou a enfermeira que me aplicasse soro com um medicamento em sua composição. Fique sentado, imóvel, no corredor daquele hospital durante o resto da madrugada e inicio da alvorada, tendo como companhia de um estranho e estático cilindro de oxigênio, que não cheguei a usufruir, visto que observar o gotejam do soro, através do pequeno orifício plástico, por mais de seis horas, já foi por demais, agonizante.
        O dia amanhecia e os espaços compactos do hospital iam se enchendo como os novos pacientes: uma mulher queixava-se de fortíssimas dores de cabeça, puseram-na numa marca e levaram para uma sala com uma pequena placa escrito “leitos”; um homem, que estava com um constante sangramento em varias partes do corpo, foi posto, repentinamente, numa cadeira próxima onde eu estava, segurava um capacete e afirmava repetidas vezes que “foi culpa dele”, admitamos; em acidentes de transito ninguém é “culpado: em terceiro, até onde minha memória alcance, dois policiais se aproximavam escoltando um indivíduo com os pulsos algemados e com a perna lavada por sangue que ejaculava mais e mais através de um orifício com pouco mais de meio centímetro, com certeza, este foi um delinquente que, não tendo muita sorte ao ser flagrado em algum ato nocivo, fora baleado em sua fuga, foi posto a dois metros de onde eu estava, e enquanto evitava olhar para aquele ferimento a bala, que derramava sangue conforme o pulsar cardíaco, tentava me conformar em esperar a bisnaga de soro esvaziar, e com isso, ganhar me passa porte para casa. Enquanto esperava, assistia o motoqueiro “inocente” ser atendido e tratado, ali mesmo na minha frente, com o médico fincando a ponta da agulha da seringa com o anestésico para então suturar com uma linha negra e um adereço pontiagudo e curvado, fazendo a cada transpassar de ponto a junção das duas extremidades do profundo corte. Desviei minha atenção para o individuo paliado, mas no canto em que estava só restou uma poça extensa de sangue coagulado - foi removido para outra sala do hospital para extração da bala. De súbito uma marca com uma mulher deitada, gritando pelas dores que sentia, se aproximava rapidamente. Estava prestes a dar a luz a uma criança. Escorria de ventre o líquido da placenta que já havia estourado. Uma lógica universal existi nos corredores de hospitais do Sistema de Saúde Pública, pede-se ver com absoluta clareza: o principio, o meio e o fim da vida humana.           
        Humanamente racional, não deixei de perceber que o sangue do delinquente sem sorte se misturava com o do motoqueiro “inocente”, escorrendo pelo piso até acolher-se com as lagrimas da mulher que chorava por sua quase insuportável dor de cabeça, e junto a isso não escapou aos meus olhos os líquidos placêntico que caia no chão do corredor, no mesmo instante em que a marca passava rumo à sala de parto, com a grávida preste a dar a luz, que clamava inconscientemente, pelas dores da vida que estava por gerar, a estima de Deus. E notando estas substâncias, espalhadas pelo chão do corredor, se misturavam para termos nossa fração de homogeneidade na infinitude das nossas falhas irracionais.
        Recebi alta hospitalar, deixando para trás a imagem de uma faxineira que limpava cuidadosamente o piso corredor. E ao Sistema de Saúde Pública devo admitir: nos colaca mais próximos de nossa equivocada racionalidade. No dia posterior, respeitando a tradição do esquecimento, me tornei “Humanamente inconsciente.”

                                                                 Edson Moura, em 09/11/2011. 

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