quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

                           Doutrina do Papel, posteriori desconhecida  (crônica)
                                                           “O invisível não é irreal: o real que não é visto.”
                                                                                                                                       ( Murilo Mendes) 

     Um dos mais intrigantes comportamentos do ser humano - no direcionamento para valores culturais contemporâneos – é o exótico e misterioso, por assim dizer, fascínio pelo “lixo” e pelas “cavernas”. Para a semântica dos dicionários ‘lixo’ é tudo aquilo que jogamos fora por não ter mais nenhum valor ou utilidade. Posto aqui que os valores afetivos ou de estima por algo, incluído, no mais ríspido e reticente dos pronomes, “alguém”, também possa ser colocado na metáfora deste teorema confuso de significados, não menos distante desta esfinge encontramos as cavernas que só será posta nesta crônica pelo seu teor filosófico, nada menos, nada mais, onde por simples justificativa social/histórica ainda estamos a pestanejar em suas sombras, dormindo ao som de uma sonata após termos nossa tristeza furtada por hipnóticos aforismos que dentro da realidade que cada um constrói não surti nenhum efeito, as sombras continuarão a existir.
      Conheci, certa vez, um personagem muito distinto, visto a distinção, em se tratando de pessoas, carrega em seu sentido tanto elogios quanto afrontas, dependemos da sombra que carregamos, mas dentro deste relato veremos a distinção como afeiçoamento das circunstâncias, Basílio, não era filho de uma aristocracia e nem tão pouco um burguês autônomo, mas de certo, tinha em seu teor genético um gene capitalista, distinto como as sobras o são. Basílio tinha nove anos, seu pai, não me importei em pergunta-lhe o nome, visto que não os vejo mais, tem pouca importância para este texto, mas é bom lembrar que este pai, cujo nome supostamente soaria aos olhos da grande massa de pessoas dotadas um grau de racionalidade como “Senhor Ninguém”, para quem os via constantemente, nas dias que tinha sua presença em nossa rua, seu nome era o “Pai de Basílio”, que por notoriedade era muito educado. Iam de calçada em calçada, catando papelão, papel ou qualquer variedade de matéria, em sua diversidade de nomes, coposta por celulose. Estacionaram a carroça de frete a minha casa e de imediato começaram colher seu sustento. Até onde minha limitada memória alcance, dentro da cotação do lixo em moeda nacional, o quilo de matéria de celulose era vendido a vinte centavos de real – ao câmbio exterior, creio que chegasse aos sete centavos de dólar, nos cálculos monetários da União Europeia deva alcançar cinco centavos, seguindo uma estimativa mais otimista, ignoro a importância em espécie da celulose no restante da esfera terrestre, mas algo pode ser dito com precisão: quanto maior fosse à quantidade de papel ou papelão que Basílio e seu pai coletasse, maior seria suas perspectivas de uma remuneração considerável. Conquiste a estima de ambos permitindo-lhes que catassem sem qualquer tipo de resignos, posto aqui em cheque, o teor valorativo dos profissionais da reciclagem, que alcançou as telas do cinema em documentários pertinentes aos que asseiam pelas elaboração mais documentações extraordinárias. Há de imaginarmos que Basílio e seu pai (‘Senhor Ninguém’ ou ‘Pai de Basílio) recebendo considerações em Cannes de atores e diretores renomados, nestes instantes esfíngicos em que a cotação da celulose alcança, de alguma forma, a cifra de milhões; há de imaginarmos, também, o seria das artes sem a função ricamente figurativa do lixo; e ainda, há de imaginarmos o que seria das ciência humanas sem as abstrações geradas pela inspiração antropológica dos catadores; e por último, mas não por fim, há de imaginarmos o seria da literatura sem os catadores.
       Vi Basílio contentar-se com volumes de listas telefônicas, pois estas, sendo um compacto de centenas de laudas, são pesadas e ocupam pouco espaço na carroça, contentava-se com o imprevisto, e não muito dista, com a sua astúcia de catador, com olhos atentos a outros catadores não menos astutos, o turno para o trabalho iniciava-se as 17:00 horas, momento que todos colocavam o lixo para fora de suas casas. Um vizinho, talvez cansado de tanta nostalgia quanto suas práticas de leitura, depositou junto aos entulhos de uma reforma que deveria está fazendo uma seta te livros velhos, de antemão confirmei que eram livros de seus estudos primários e secundários. Realmente aquele personagem, que agora faz parte deste texto, estava cansado de nostalgias escolares. Não demorou muito para este nos convidasse com um súbito “por favor”, tanto Basílio, o “Pai de Basílio e eu, para ajuda-lo a desentulhar sua casa, oferecendo em troco aos catadores todas as tranqueiras que eles por ventura achassem utilidade, a mim ofereceria um “obrigado amigo”, visto que a palavra amigo em muitos casos é empregada para designas nossa prestatividade para com o próximo, mesmo que esta proximidade não dure mais que o tempo do obséquio. Uma coisa foi certa naquele momento: aprendi, através de uma rápida conversa com o Pai de Basílio, todo o processo de reciclagem de papel, desde o umidecimento até a moagem e pasteurização. Basílio, com discrição, folheava os livro que personagem intruso havia posto no entulho. Sem discrição o maior dos denunciadores sobre nossos intentos, ou pelo menos uma antecipação de alguns desejos.
        Sobre o processamento de reciclagem de lixo não me tornei grande conhecedor, admito que estava mais interessado no gesto de Basílio, ao vê-lo transpassar cada página daqueles livros como se estivesse a descobrir um dom que antes estivera perdido ou escondido de si. Quem sabe já tivesse este dom descoberto? Quem sabe estivesse a ignorar sua vontade por conhecimento? Quem sabe Basílio tivesse poupado aqueles manuais de estudos primário e secundário da moagem, separado em canto da carroça para então formar sua pequena biblioteca e desfrutar de um autoconhecimento advindo de entulhos de personagem agora, creio, longe de qualquer saudosismo?
       Nunca perguntei a Basílio o que ele fez com aqueles livros. Deveria tê-lo feito. Tudo que pude perguntar, dentro de uma débil descrição e de minha ridícula cautela em se tratando de perguntas, foi até que ano escolar Basílio tinha chegado. Ao nobre leitor esta informação não posso dispor, pelo vinculo de uma promessa a o “Catador de Letras” que era como deveria ser intitulado este micro opúsculo sobre papeis, que sabe, se na construção de outro relato eu não o faça.
       Não tardemos muito a compreender que a grande excitação das histórias que criamos estão expostas numa realidade que corre defronte débeis olhares sobre pequenos e sorrateiros detalhes, será preciso que nosso corpo sinta essa alquimia transitaste ainda escondida. Nada teremos de criativo enquanto insistirmos em reproduzir uma realidade asseada a conceitos já existente.  Em palavras menos redundantes e enfadonhas: não há um distanciamento muito grande entre Cavernas e Lixo, entre Sombras e Conhecimento. É por mérito que Basílio e seu pai tenham descoberto uma nova linha de conhecimento, que possa, que sabe, servir para reforçar as ciência humanas. Distante das cavernas está a Doutrina do Papel.                 

                                                                     Edson Moura -17.04.2009          

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