sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

                             LIQUIDEZ DA ALMA    (CONTO)
           Foi sempre notório que Devânio procurasse, na profundidade de seus estudos, a liquidez da alma humana. Como seria esta substância que há milênios os homens introspectavam em vão, afim de poder toca-la. O plasma daquilo que não se pode ver nem tocar existiria realmente?  Impelia seus esforços por anos em uma incipiente e modesta biblioteca, seu minúsculo laboratório, naquela que seria sua maior busca. As respostas que procurava, sobre a liquidez da alma, talvez reposasse no calidoscópio do conhecimento das ciências humanas. Foram, dentro de exaustivos momentos, consumindo-se na elaboração de opúsculos: alguns pequenos e simples, outros, chamativos, extensos, tão retóricos e impregnados de adornos persuasivos que, estimularam o entendimento de sua existência. Existiria uma ciência capaz de encontrar uma resposta para sua busca de uma matéria que nascera de infindáveis especulações das morais, dos medos, do inconsciente advindo das mentes mais imaginativas. Sem dúvida, Devânio nunca relutou sobre a não existência desta liquidez. Para ele não exista as trivialidades dos dias, das noites, horas ou minutos. Aprofundou-se tão dolorosamente nos escopos de sua ideia que naquele século perdido em que se encontrava não haveria mais genitivos em crescimento para ver como seu mundo realmente era. A liquidez da alma seria extraída através das chamadas sublimações dos sentidos que os seres humanos não podem ver, aquela que estão estritamente escondidas no âmago de qualquer vida que habite o planeta. São todas estas capazes de exalar os vapores arkeönicos – em seus obscuros estudos sobre a liquidez da alma estes vapores arkeönicos teria uma cor violeta e odor que construiria no imaginário de quem o sentisse, um campo de jasmim, e, ao mesmo tempo o vislumbre confuso de corpos humanos, vivos, mas num estado de putrefação, com sua vísceras gritando no consciente, e não muito distante desta estranha e alquimélica sensação, corroboraria uma êxtase repentinos, semelhantes a uma rubrica ejaculativa. Seriam estes os primeiros sinais que o individua, dotado de sensibilidade para atear suas mãos na superfície liquifática da alma humana, sentiria logo de imediato. Nos estudos de Devânio, os vapores arkeönicos podem ser facilmente perceptíveis a todo instante. É esperado que uma grade fração dos seres dotados consciência, se esconderia atrás de um ceticismo natural para nortear com descrença as deduções feitas por Devânio. E estes se ateve, justamente, ao próprio ceticismo natural para poder fazer suas primeiras comprovações e demonstrações sobre a liquidez da alma. O IPP (Instituto de Probabilísticas Possíveis) já havia solicitado não só uma retratação de Devânio como também uma audiência perante a comunidade científica local, como intuito de cogitar a respeito de uma possível difamação de sua criativa e não muito agradável ideia de colocar os princípios científicos na balança pendendo para loucura. No mesmo dia que recebeu a intimação preparou sua defesa e possíveis explicações que conduziria a um convencimento e comprovação de suas teorias. Subiu a escadaria do ostentoso edifício do IPP. Entrou no salão dos Erutianos, onde o tribunal que iria realizar o jugo das ideias de Devânio já estava formado e pronto para dar inicio a audiência – uma comitiva composta de vários membros que representavam correntes de pensamentos daquele século perdido. De imediato iniciou sua retratação e explicações acerca do conhecimento que tinha adquirido:           
    O método é simples. Consiste em olharmos para as ranhuras do nosso cotidiano, ranhuras estas que estão por toda parte, escondidas na invisibilidade que nos foi dada por milênios. Um presente talvez. Um presente do incognitivo. De algo que deixou de ter nome, ou supostamente não lhe atribuído o devido nome. Algo misterioso que dentro de nossos estudos sobre os vapores arkeönicos devemos dar pouca importância, ou nenhuma. Visto que a invisibilidade é um aspecto de uma dedução não vejo necessidade de demonstrar-lhes qualquer substancia palpável. Este tipo de preconceituosidade será dignamente bem aceita dentro de minhas explicações. Se me permitem mostrar-lhe-eis agora este recipiente vazio, onde antes, guardava a liquidez da minha alma. Está vazio, pois ingeri o que estava em seu conteúdo antes de vim para este instituto. Não tenho o devido e recíproco interesse em lhes mostrar os resultados de minha descoberta, pois é justamente esta a proposição do método: a abstinência da visão, a involuntária vontade de ver a matéria, a consciência na existência das ranhuras do cotidiano e, por fim, mas não um fim absoluto, estudar como menos ceticismo os vapores arkeönicos. Não se frustrem pelo meu gesto de ingerir minha própria alma. Deduzo e afirmo, sem o menor pudor, que vocês, mesmo acreditando conjunturalmente no desconexo sentido da minha descoberta, se deram necessidade espontânea de me obrigarem a uma retratação deste grandeza, pois digo: que pesadelo maior poderia ser criado para o cético ao ver em seu olhos e no âmago de seu cerne seus valores divididos por algo que lhe pareça absurdo. Não me comprazo em desvendar o pouco valor que é dado, neste momento, aos seus valores, pois também sou um praticante vorás das ciências. E em recompensa a sutil atenção que me deram, ensinarei a vocês os três caminhos para encontrar a liquidez da alma: primeiro, deverão encontrar as ranhuras do cotidianos – estas, só para lembrar são invisíveis, encontradas na simplicidade do altruísmo espontânea -; segundo, contidos nestas ranhuras estão os vapores akeönicos – não será difícil reconhecer, pois tem o aspecto de uma pequena nebulosa violeta; terceiro, ao capturar este vapores deverão investir num processo de condensação, para em seguida captar a liquidez da alma. Se forem apreendidos por estes três estágios, terão a sensação de estarem caminhando num campo extenso, impregnado com odor de jasmim, misturado com uma vertigem estranha, que se assemelha com impressão que teriam se estivessem vendo suas próprias vísceras. Prezados membros do IPP, creio que minha vontade de estender minhas explicações tenha chegado ao fim, não direi mais nada, exceto que permitam que eu termine minha experiência com a referida liquidez da alma.”
          Após o termino da audiência com os representantes IPP, foi decidido que haveria um recesso de duas horas para o jugo das ideias de Devânio, duas horas que foram abreviadas em dez minutos, pois as premissas que conduziam aos estudos sobre a liquidez da alma colocavam em risco imediato as leis e diretrizes valorativas do cepticismo. E como veredicto, advindo dos quatro representantes do IPP, Devânio foi condenado, de imediato, a ingerir 200mg de aminako, uma substância de induzia as células do cérebro ao canibalismo, consumindo-se umas as outras. Com isso o individuo perderia as sentidos através de dores insuportáveis, seguido de uma angustia insólita e, por fim, a loucura total. Devânio foi jogado no Subterrâneo dos Esquecidos, que se localizava no subsolo do IPP, juntamente com outras cinco almas condenadas. Antes de perder o foco de sua consciência, pode ver três dos que estavam presos junto com ele, os outros dois estavam caídos ao chão, sem movimento. Os que estavam no alcance de seus olhos estavam com os olhos e genitálias sangrando. Não gritavam, não sentiam dor, talvez as 200mg de aminako já consumira seus sentidos. Seus corpos pendurados em ganchos, a um metro do piso, gotejavam suor e sangue. Devânio os vapores arkeönicos, a insolodez violeta, saírem de seus corpos. Sua última visão antes de sua pálpebras se fecharem e ele cair no vazio catatônico. O IPP confiscou e cremou os manuscritos sobre os estudos da liquidez da alma. Aquele século não seria mais atormentado pela sinuosidade da dúvida sobre uma descrita matéria recém descoberta. Devânio seria esquecido.    

                                                                                                       Edson Moura

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