quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Uma direção (crônica)

 
       Tudo começou com um receio; o receio de estar muito longe. Creio que sem este, jamais haveria o que narrar. É obvio que foi sempre o próprio desconhecido o maior protagonista das histórias sobre nossos medos, ou qualquer tipo fenômeno incógnito que provoque o espanto. Seriam estes os próprios impulsionadores da curiosidade em testemunhar o que está além do que não podemos ver? Descobri que não é mais do que a imagem de um longo caminho para aguçar nossos ímpetos mais secretos. 
       Quando o vi, totalmente vazio e deserto, após percorrer alguns décimos de quilômetros, olhei para trás e lembrei que os caminhos se bifurcavam em vários pontos da estrada. Devo, por motivos que às vezes fogem do controle, ter esquecido este detalhe não menos importante. Provavelmente, estava mergulhado nos delírios cômicos de algum pensamento. É claro que equívocos como este acontecem, quando não estamos acostumados andar em determinadas estradas – aquelas desconhecidas – é claro que respostas escuras nos venham, a tentar nos guiar por caminhos alheios de nosso próprio conforto. É sempre mais fácil e menos confuso olhar para os caminhos que já conhecemos e para as imagens que já estão guardadas: as mesmas árvores, as mesmas casas, as mesmas pessoas, os mesmos sentidos que nossa ínfima sabedoria sobre aquilo que temos de profundo. Enfim, se enfartar no previsível. É sempre mais fácil reter-se na desistência, ou sufocar a curiosidade na medíocre atmosfera daqueles que não criam novos rumos para um mesmo fim. Certamente o proprietário daquele caminho, tão distante para meus olhos, não iria me privar de saciar minhas curiosidades: para onde estou indo? Qual seu fim? Não iria me privar de ver aonde aquela estrada me conduziria, e eu não iria voltar por causa dum receio qualquer: que a distância sempre apavora. Normalmente, elas sempre apavoram.
         Mas de onde vem esta bendita e ruidosa curiosidade?! Por que as longas distâncias fascinam? Ora, cansei de explorar os mesmos caminhos, usando horários diferentes para ocultar os mistérios que não existiam mais, e enganar minha ansiedade pelo desconhecido. Assim como um papel em branco, o desconhecido deve ser preenchido com palavra e descobertas. Que mal há em transpor as longas distâncias.
         Veio um silêncio – creio que exista algum tipo de silêncio que quase sempre antecedo as decisões. Há aqueles preferem enfrentar o desespero, trilhando caminhos egoicos com passos altruístas, tendo o solidão como martírio. Podem sem duvida, num turbilhão de aflições cômicas, quase sempre exageradas, como costumo afirmar, deixar corroer o que antes era completo, aquela certeza de que existirão sempre em nosso curtíssimo espaço cósmico caminhos difíceis e talhados com sombras. E mais do que isto, se privar sempre a ensinar novas formas de se lidar com o mundo a nossa volta.
     Quanto a minha escolha!? Arrisque enfrentar o receio e ver a continuação daquele caminho. Este, preciso confessar, não era nem mais nem menos do que os caminhos que percorro todas as manhãs. Era domingo e todos dormiam.

                                                                     
            

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